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Ao considerar o estabelecimento de algumas conclusões sobre
a morte de Jesus, lembre-se em primeiro lugar de definir as distinções
entre certos conceitos. A Declaração de Fé dos Batistas argumenta de
forma clara que a morte de Jesus deve ser compreendida em termos de
expiação.
De alguma forma a morte de Jesus traz expiação de pecados
para aqueles que aceitam a sua eficácia dentro dos parâmetros de fé.
Expiação refere-se expressamente à eliminação do pecado.
Vicariedade refere-se à morte de um em lugar de outro. Os
dois termos são comumente tratados como sendo um só conceito (expiação
vicária), porém permanecem sendo dois conceitos distintos que podem ser
unidos em certas circunstâncias.
O Antigo Testamento trata de expiação, porém só em Isaías
53 trata-se a questão de morte vicária. O Antigo Testamento desconhece o
conceito de sacrifício de morte vicária, a não ser na morte vicária de
Zerubabel em Isaías 53 e o cordeiro que redime Isaque, o primogênito de
Abraão (e em decorrência o cordeiro pascal nos mesmos moldes de redenção
do primogênito).
Na redenção do primogênito, temos o conceito de
substituição, mas não vinculado ao conceito de expiação.
A compreensão básica do sacrifício de expiação no Antigo
Testamento visava à aproximação do homem para com YHWH, provavelmente no
sentido de mediar uma audiência. No entanto, no texto de Isaías 6.7,
YHWH concede audiência direta aparentemente sem preocupar-se com a
questão de culpa e pecado, mas quando o profeta levanta a questão de sua
culpabilidade, uma mera brasa pôde expiar sua impureza! Aqui há expiação
desvinculada de sacrifício, porém num contexto de audiência com Deus.
Deve-se, portanto, fazer uma distinção entre expiação em si
e em teorias de expiação—ou seja, as formas de compreender o evento da
expiação (perdão) de pecado. Expiação no Antigo Testamento estava
voltado à restauração de comunhão com Deus. O sangue do animal aspergido
sobre o altar e a arca da aliança (a tampa da qual representava o trono
de YHWH, sendo o seu trono na terra) e sobre o ofertante simbolizava tal
aproximação, já que a vida derramada voltava a YHWH. Como o ofertante
haveria colocado suas mãos sobre o animal antes da morte do mesmo, seria
também levado perante YHWH, restaurando a presença de YHWH no templo e
na sua vida— caso YHWH aceitasse a oferta! Como o sacrifício era visto
como dependendo da aceitação de YHWH, não é propriamente a morte nem
mesmo o sacrifício que efetua expiação, mas é o próprio YHWH, mediante
uma atitude de graça, que torna o sacrifício eficaz. Esta compreensão
leva o evento sacrifical a ser visto mais como um ato de obediência e
reflexão do que um ato salvífico em si.
Quando Jesus Cristo morre na cruz, sofrendo a morte na
tradição do sofrimento dos justos e da morte dos profetas (Mateus
23.29-31), é YHWH mesmo ofertando a sua própria vida a Si mesmo como
sacrifício pelo povo para expiação e em resgate, com fins de restaurar a
humanidade à comunhão quebrada por causa do pecado humano, motivado pelo
amor de YHWH pelo homem. STBRS – Cristologia e Soteriologia Pr.
Chrístopher B. Harbin
Doc: Cristologia e Soteriologia.doc Impresso: 2002-08-14
página 18 de 20 desgarrado. Jesus morreu, mas vive e intercede por nós
eternamente. Jesus é vicário conforme Filipenses 2, no sentido de YHWH
criar carne (João 1.14) e viver em nosso lugar, demonstrando como
deveria ser a nossa vida de “servos humanos”, sendo “obediente até a
morte, e morte de cruz”. Jesus não é tanto vicário em sua morte, como é
na sua própria vida, da qual nos é dado participar, sendo Jesus também o
modelo para seguirmos, e assim Jesus vive vicariamente naquele que crê
(Rm 6.1-11, Gal 2.20).
A morte de Jesus, portanto, tem vários sentidos que não se
reduzem a uma só expressão. De certo, o evangelho pregado por Jesus já
está embutido no Antigo Testamento, mas na encarnação, ministério e
morte de Jesus o evangelho é clarificado e o ser humano é forçado a se
posicionar. Foi necessário que Deus “criasse carne”, vivesse entre nós,
sofresse, morresse e fosse ressuscitado para nos salvar. Isso por que:
1) Foi necessário o homem perceber de forma clara o
grande amor de Deus;
2) Foi necessário o homem reconhecer de forma clara
a seriedade do seu pecado.
3) Foi necessário clarificar que nenhum sacrifício
animal (nem humano) poderia ser eficaz para a expiação do pecado.
4) Foi necessário para revelar que a aliança
dependia completamente da ação de Deus, quem oferece e é o próprio
sacrifício para a ratificação do pacto.
5) Foi necessário para a comprovação definitiva que
Jesus era tanto o messias esperado como a própria encarnação de YHWH,
ratificado na ressurreição.
6) Foi necessário para revelar a importância dada
por Deus (clarificado no custo da paixão) às exigências da aliança
(reinar de Deus no indivíduo—reino de Deus)
7) Foi necessário para convencer o ser humano que a
aliança é muito mais do que o estabelecimento de uma sociedade (governo)
justa aqui na terra.
8) Foi necessário para definir categoricamente a
importância e a necessidade de um posicionamento definitivo em termos de
aceitar ou rejeitar a oferta de Deus.
Para quem se opõe às exigências do evangelho da cruz teria
que encontrar uma maneira de ser valorizado por Deus, mesmo rejeitando o
amor de Deus expresso no ato de Deus em entregar-se a uma morte cruel
expressamente para resgatá-lo. Portanto, quem rejeita a Jesus Cristo
desvaloriza tal expressão do amor de Deus, incluindo-se com aqueles que
o crucificaram. Para esse, que outro sacrifício pode existir que valeria
para retificar a sua posição perante Deus?
Jesus Cristo, portanto, é o messias não-esperado. O povo
esperava um messias, mas Jesus foi bem diferente do que se esperava. O
evangelho já fora comunicado através do Antigo Testamento, mas não fora
amplamente compreendido, nem a sua mensagem completamente desenvolvida.
Agora com a vinda, morte e ressurreição de Jesus, a mensagem é mais
clara e mais confrontativa. É necessário fazer uma escolha—aceitar por
completo as exigências de uma
vida completamente entregue a Deus em Jesus ou
categoricamente desvincular-se de Deus.
Não existe outra opção: ou é tudo, ou nada.
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Pastoral
Fonte:
Cristologia e
Soteriologia
Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul
Teologia Sistemática 4
Pr. Adelcio Ferreira
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