INTRODUÇÃO
O nome hebraico do
primeiro livro da Bíblia é “Bereshith”, palavra que introduz o capítulo
1 e significa “no princípio”. Quando foi produzida a Septuaginta,
tradução do Velho Testamento para o grego, o livro recebeu o nome de
“Gênesis”, que significa “origem”.
O Gênesis
apresenta a criação e o Criador. Descreve o início do universo, da
humanidade, do pecado e da execução do plano divino de salvação. Sua
existência é fundamental para a compreensão dos demais livros da Bíblia.
O Gênesis apresenta respostas para uma série de perguntas que, de outro
modo, não seriam respondidas. O homem sempre quis saber sobre sua
origem, as causas de sua condição atual, etc. Tais questões são
respondidas pelo Gênesis. Ali estão as causas fundamentais de tudo o que
aconteceu na história humana. Contudo, nem todos aceitam seu conteúdo
como verdade e partem em busca de outras explicações para a origem da
vida. É o caso, por exemplo, daqueles que defendem a teoria da evolução.
O Gênesis
apresenta o início da saga humana, cujo desfecho se dará no Apocalipse.
Entre ambos os livros, encontra-se a jornada humana rumo às profundezas
abissais do pecado e a missão messiânica para buscar o homem e
conduzi-lo de volta ao seu estado original no paraíso de Deus.
Os primeiros 11
capítulos de Gênesis nos falam sobre o prelúdio da história universal. A
partir do capítulo 12 temos o início da história de Israel, o povo
escolhido para trazer ao mundo o Messias.
ESBOÇO DO LIVRO
1.1 a 2.3 –
Criação do universo, da terra e do homem.
2.4-25 –
Detalhamento da criação do homem e da mulher.
3.1-24 – O pecado
do homem e sua expulsão do Éden.
4.1-26 – Caim e
Abel. O primeiro homicídio. A descendência de Caim.
5.1-32 – A
genealogia de Adão até Noé. Enoque andou com Deus.
6.1-22 – A
corrupção da humanidade. O anúncio do Dilúvio.
7.1-24 – O
Dilúvio.
8.1-22 – Noé sai
da arca.
9.1-19 – Aliança
de Deus com Noé.
9.20-29 – A
embriaguez de Noé e o pecado de Cão.
10.1-32 – A
genealogia de Noé.
11.1-9 – A torre
de Babel.
11.10-32 – A
genealogia de Sem até Abrão.
12.1-20 – O
chamado de Abrão. Sua descida ao Egito.
13.1-18 – A
separação de Abrão e Ló.
14.1-17 – A guerra
dos reis.
14.18-24 – O
encontro de Abrão e Melquisedeque.
15.1-20 – A
aliança de Deus com Abrão.
16.1-16 – O
nascimento de Ismael.
17.1-27– A
circuncisão - confirmação da Aliança. Deus muda o nome de Abrão e
Sarai.
18.1-16 – Três
seres celestiais visitam Abraão.
18.17-33 – O
anúncio da destruição de Sodoma e Gomorra.
19.1-38 – A
destruição de Sodoma e Gomorra.
20.1-18 – Abraão
habita em Gerar e nega que Sara seja sua esposa.
21.1-8 – O
nascimento de Isaque.
21.9-21 – A
expulsão de Hagar e Ismael.
21.22-34 – A
aliança entre Abraão e Abimeleque.
22.1-24 – A prova
de Abraão – sacrificar Isaque.
23.1-20 – A morte
de Sara.
24.1-67 – A união
de Isaque e Rebeca.
25.1-11 – A morte
de Abraão.
25.12-18 – A
genealogia de Ismael.
25.19-25 – O
nascimento de Esaú e Jacó.
25.26-34 – Esaú
vende sua primogenitura.
26.1-11 – Isaque
habita em Gerar e nega que Rebeca seja sua esposa.
26.12-25 – As
contendas de Isaque pelos poços.
26.26-25 – A
aliança entre Isaque e Abimeleque.
27.1-46 – Jacó é
abençoado no lugar de Esaú.
28.1-22 – A viagem
de Jacó para Padã-Arã e o sonho da escada para o céu.
29.1-14 – Jacó se
estabelece na casa de Labão.
29.15-31 – Jacó se
casa com Lia e Raquel.
29.32 a 30.24 – O
nascimento de onze filhos de Jacó.
30.25-43 – A
prosperidade de Jacó em Padã-Arã.
31.1-55 – Jacó
foge de Labão.
32.1-32 – Jacó vai
ao encontro de Esaú e luta com Deus.
33.1-20 – Jacó
encontra-se com Esaú.
34.1-31 – O
estupro de Diná e a vingança de Simeão e Levi.
35.1-29 – Jacó
volta a Betel. O nascimento de Benjamim. A morte de Isaque.
36.1-43 – A
genealogia de Esaú.
37.1-11 – Os
sonhos de José e a inveja de seus irmãos.
37.12-36 – José é
vendido com escravo.
38.1-30 – Judá e
Tamar.
39.1-23 – José na
casa de Potifar.
40.1-23 – José na
prisão. A interpretação dos sonhos do copeiro e do padeiro.
41.1-57 – José
interpreta os sonhos de Faraó e torna-se governador do Egito.
42.1-38 – Os
irmãos de José descem ao Egito.
43.1-34 – A
segunda viagem dos irmãos de José ao Egito.
44.1-34 – A taça
de José no saco de Benjamim.
45.1-28 – José se
revela aos seus irmãos.
46.1-34 – Viagem
de Jacó ao Egito.
47.1-12 – Jacó e
sua família se estabelecem no Egito.
47.13-31- José e a
venda de alimentos.
48.1-22 – Jacó
adoece e abençoa José e seus filhos.
49.1-33 – Jacó
abençoa seus filhos e morre.
50.1-14 – O
sepultamento de Jacó.
50.15-26 – José
anima seus irmãos e morre.
AUTORIA – Moisés
– Sabendo-se que o autor viveu muito tempo depois dos fatos narrados em
Gênesis, é natural concluirmos que seu trabalho de composição foi a
reunião de informações oriundas de diversas fontes, tanto orais quanto
escritas. O Novo Testamento testifica que os livros da lei, os cinco
primeiros da Bíblia, foram escritos por Moisés.
O autor nada diz
sobre si mesmo. Nunca se expressa na primeira pessoa nem participa dos
fatos. Não manifesta sua opinião nem demonstra suas emoções. É um
autêntico historiador. É imparcial, mostrando erros e acertos dos
personagens. Contudo, são personagens escolhidos, em função do objetivo
da obra. O autor tem direção e propósito bem definido: apresentar
Israel e as raízes do judaísmo. Em que época ele escreve? Verifique
pelos anacronismos. O texto tem os patriarcas como personagens
principais. Eles são colocados em evidência e se encontram com grandes
reis da época, diante dos quais são reconhecidos com servos de Deus e
pessoas dignas de honra e temor. Alguns reis tomam a iniciativa de
fazerem aliança com eles, indicando assim algum tipo de superioridade do
patriarca. Mesmo errados em algumas situações, os patriarcas se saíam
bem no final por causa da bênção e da proteção divina (Gn.12.16-20). Foi
o caso, por exemplo dos irmãos de José, que o venderam para o Egito, mas
isso lhes foi benéfico no final. Vemos nisso a soberania divina, fazendo
com que tudo contribuísse com o seu plano superior de redenção da
humanidade.
PALAVRA CHAVE -
Princípio.
CLASSIFICAÇÃO –
Quanto ao agrupamento dos livros da bíblia, o Gênesis é considerado como
parte da lei, sendo o primeiro livro da Torá ou Pentateuco. Quanto ao
seu conteúdo, trata-se de um livro histórico. O autor segue a ordem
cronológica em quase todo o livro. Exceções são os trechos das
genealogias e o detalhamento da criação do homem no capítulo 2.
GN.1.1 A 2.3 –
CRIAÇÃO DO UNIVERSO, DA TERRA E DO HOMEM.
CRIAÇÃO X EVOLUÇÃO - argumentos do livro “Enigma das Origens”
O que se crê sobre
a origem do universo determina o que se crê sobre o modo de vida e o
destino.
É impossível
provar cientificamente a criação ou a evolução. Seria preciso repetição
experimental.
Ambos os sistemas
dependem da fé. É errado dizer que o criacionismo é religioso e o
evolucionismo é científico. O criacionismo está muito mais de acordo com
o conhecimento científico.
O evolucionista
crê em uma matéria pré-existente assim como cremos no Deus
pré-existente.
Evolucionismo é
uma teoria e não uma ciência.
Os seguintes
questionamentos contra a evolução são indícios de criação:
Não há formas
intermediárias entre as espécies. Não foram encontradas nos fósseis. Na
época de Darwin esperavam encontrar um dia. Até hoje não encontraram.
Os evolucionistas
colocam em fila seres que existem paralelamente.
Semelhanças e
diferenças entre gatos e cães – o evolucionista vê sinais de
transformação de um em outro. O criacionista vê o projeto de um Criador
comum que projetou estruturas semelhantes para funções semelhantes e
estruturas diferentes para funções diferentes.
Cruzamento de
espécies produzem animais estéreis – jumento + égua (ou cavalo +
jumenta) = mula.
Mutações não
provam a evolução. Deus capacitou os organismos a se adaptarem às
condições ambientais. Possibilitou também a variedade racial, mas uma
nova raça não é uma nova espécie.
Para negar que a
criação seja um fato, é preciso negar a existência de Deus. Só pode
dizer que Deus não existe uma pessoa que possa ter conhecimento
universal e estar presente em todos os lugares para constatar a ausência
de Deus em todos eles. Então, só “um Deus” pode verificar e afirmar que
Deus não existe.
Criacionismo e
Evolucionismo são conjuntos de conceitos não comprováveis
cientificamente. Porém, são comparáveis com a realidade, de modo que se
pode verificar qual dos dois conjuntos é mais coerente com ela.
Cada conjunto
conceitual tem seus pressupostos e faz suas previsões.
O evolucionismo
ensina que toda a realidade é um processo único de auto-transformação. A
matéria se desenvolve, para melhor, sem a intervenção de qualquer força
imaterial. Ensinam, portanto, que o acaso, operando sem controle
inteligente e sem propósito, produz o progresso, a inteligência e o
aperfeiçoamento constante.
O criacionismo
ensina que tudo foi feito no princípio e nada mais está sendo criado.
Nada está se aperfeiçoando, mas se corrompendo por causa do pecado.
|
ASSUNTO |
PREVISÃO
EVOLUCIONISTA |
PREVISÃO
CRIACIONISTA |
|
Galáxias |
modificação constante |
continuidade do estado original |
|
Estrelas |
um tipo se
transforma em outro |
não existe
transformação |
|
Corpos
celestes |
se
aperfeiçoando |
se
deteriorando |
|
Surgimento
da vida |
a partir
da não-vida |
a partir
da vida. |
|
Tipos de
rochas |
Diferentes
de uma era para outra |
Iguais em
todas as eras |
|
Ordem dos
organismos |
Série
contínua |
Espécies
paralelas |
|
Novos
tipos de vida |
aparecem |
não
aparecem |
|
Mutações |
são
benéficas |
são
prejudiciais |
|
Seleção
natural |
processo
criativo |
processo
conservativo |
|
Registro
fóssil |
inúmeras
transições |
lacunas
sistemáticas |
|
Aparecimento do homem |
a partir
do macaco |
sem
ligação com o macaco. |
|
Civilização |
lenta e
gradual |
contemporânea ao homem |
A previsões
criacionistas, mostradas no quadro anterior, estão mais coerentes com a
realidade que vemos ao nosso redor.
O evolucionista se
esforça para demonstrar suas teses. O criacionista apela simplesmente
para a observação da realidade.
O evolucionista
acredita que as mutações são benéficas. Porém, nenhum deles estimula o
derrame de material radioativo na natureza para estimular mutações.
Notamos então uma contradição entre a teoria e a prática.
O relógio é prova
da existência do relojoeiro. A natureza complexa do corpo humano nos
leva a concluir que houve planejamento e que, portanto, existe uma
inteligência por trás disso. A beleza e o padrão existente na natureza
nos levam a concluir que existe um pensamento único que planejou tudo.
O universo
funciona sobre um sistema matemático perfeito. O cérebro humano é a
estrutura mais complexa que já se descobriu, possuindo algo próximo de
10 milhões de células.
A evolução é
anti-ciência - Se tudo continua evoluindo, inclusive as leis naturais,
então todo o conhecimento científico pode se perder a qualquer momento
por não mais corresponder à realidade. Se, porém, o criacionismo for
verdadeiro, então a ciência pode estar segura da imutabilidade das leis
naturais.
Lei natural –
causa e efeito – nenhum efeito pode ser maior que a sua causa. Como um
pontinho de matéria sem vida e sem inteligência poderia dar origem à
vida e à inteligência, à moral, ao amor, ao espiritual, à consciência, à
personalidade. A figura de Deus combina muito mais com a lei de causa e
efeito.
O CARÁTER DE DEUS
O primeiro
personagem do Gênesis é o próprio Deus. No primeiro capítulo, começamos
a conhecer seu caráter através de sua obra criadora. A Bíblia não traz
a intenção de provar a existência de Deus. Seus autores partiram de um
pressuposto absoluto, que é a fé. Não tentaram convencer o leitor, mas
ensiná-lo a respeito de Deus.
Lendo o relato da
criação, encontramos Deus como um ser:
Eterno – pois não
se fala sobre o seu início.
Sábio – pois criou
tudo da melhor maneira.
Todo-poderoso –
possuindo o poder de criar todas as coisas.
Criador – Ele
colocou em ação o poder de criar.
Organizado – Ele
criou tudo numa ordem coerente, de modo que as primeiras criaturas
preparavam o ambiente para as seguintes.
Objetivo – todas
as criaturas foram feitas com propósito definido.
Bondoso – tudo o
que ele fez era bom.
Abençoador –
Preparou um paraíso para o homem.
Soberano – O
universo se move sob suas ordens (1.3,6,9,11,14,22,24,28).
Um Deus plural –
Em alguns momentos da criação, Deus usa verbos no plural (Gn.1.26;
11.7). Entendemos nisso a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo
(1.2). Em outros versículos, o nome de Deus é plural (Elohim), mas o
verbo está no singular (Gn.1.1).
Deus único – O
Gênesis não apresenta vários deuses, cada um criando uma parte do
universo. Um único Deus criou todas as coisas.
Senhor – Por ter
criado todas as coisas, ele é o dono de todas elas, inclusive de todos
os seres humanos. Somos seus por direito.
Legislador – No
capítulo 1, vemos a determinação de diversas leis naturais, que
continuam em vigor até hoje. Por exemplo, no versículo 11, está
determinado que as ervas produzam sementes e que nelas estejam as
características genéticas da planta. Deus determinou o lugar de cada
coisa ou ser criado: a terra seca, o mar, os animais, os peixes, os
astros, etc. Esta ordem do universo, seu equilíbrio e funcionamento,
são algumas das inúmeras evidências da existência de Deus.
Os capítulos 1 e 2
refutam o politeísmo, o panteísmo e o deísmo. Vemos um só Deus, distinto
da criação, e que se importa com os seres criados, principalmente com o
homem.
A TEORIA DO CAOS
Alguns defendem a
teoria de que entre o primeiro e o segundo versículos do capítulo 1,
existe um intervalo de tempo indefinido, mas, provavelmente, muito
longo. Nesse tempo, Satanás teria pecado no céu e sido lançado na terra,
causando-lhe grande destruição. Por esta causa, a terra ficou sem forma
e vazia. O texto original do versículo 2 admite também a seguinte
tradução: “A terra veio a ser sem forma e vazia”. Um ponto de apoio
apresentado para esta teoria é o versículo de Isaías que diz que Deus
não criou a terra vazia (Is.45.18). Uma dificuldade para os defensores
desta teoria é explicar como pode ter ocorrido morte no mundo antes do
pecado humano. Isto é bastante improvável, de acordo com Rm.5.17.
O PODER DA PALAVRA
A criação foi
feita através do poder da palavra de Deus, mediante a ação do Espírito
Santo, que pairava sobre a face das águas. Como disse o escritor aos
Hebreus: “Pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram
criados, de maneira que o visível não foi feito do que é aparente”
(Hb.11.3). Na medida em que suas ordens eram proferidas, suas obras
surgiam. Disse Deus: “Haja luz, e houve luz”.
No Novo
Testamento, temos também um exemplo desse poder. A palavra de Deus
chegou até Maria e nela, pela ação do Espírito Santo, realizou a
concepção de Jesus. Isto aconteceu porque Maria recebeu, de bom grado, a
vontade de Deus, dizendo: “Cumpra-se em mim conforme a tua palavra.”
(Lc.1.38).
Hoje, Deus ainda
cria por meio da sua palavra. Ela faz gerar em nós o seu propósito,
quando a recebemos com fé e obediência (Hb.4.2). De outro modo, ela
servirá apenas para a nossa própria condenação (João 12.48).
Nossas palavras
também podem ter poder criativo ou destrutivo. “A morte e a vida estão
no poder da língua.” (Pv.18.21). Por isso, devemos ser cuidadosos com o
nosso falar. Os danos ou benefícios das palavras podem atingir muitas
pessoas, principalmente aquele que as profere.
ALEGORIA DO CAOS
Muitas vidas estão
como a terra do segundo versículo, sem forma e vazia. Foram criados por
Deus mas não tem nenhum compromisso com ele. Estão distantes,
indiferentes, querendo viver independentes de Deus. Desta forma, nada de
bom será produzido. O cenário é de trevas sobre a face do abismo. Se o
abismo está coberto pelas trevas, existe uma situação de perigo oculto.
Esta é a condição de todos os que vivem sem Deus. Existe sempre o risco
de uma destruição repentina.
Quando Deus entra
na vida de alguém, ele começa a transformar a realidade desta pessoa.
Deus é luz. Um dos significados de “luz” é conhecimento. Permita que o
conhecimento de Deus comece a transformar sua vida. Aos poucos, dia após
dia, ele criará algo novo. Tudo vai chegando ao seu devido lugar, e o
resultado será uma vida de comunhão com o Senhor. Contudo, o risco
continua existindo. No Jardim do Éden estava a Serpente, Satanás. Por
isso, a vigilância deve ser algo constante na vida daqueles que já
conhecem o Senhor.
A AUTORIDADE DO HOMEM
Depois de criar
todas as coisas, Deus fez o homem e o constituiu como autoridade sobre a
criação (Gn.1.26). O ser humano deveria dominar tudo o que existe sobre
a terra. Contudo, esta autoridade só prevaleceria, enquanto Adão
estivesse ligado à fonte do poder, que é Deus. A partir do momento em
que pecou, Adão deixou de dominar. Por isso, Satanás se tornou o
“príncipe deste mundo” (João 14.30; Lc.4.5-6), e, desde então, “o mundo
jaz no maligno” (I João 5.19), fazendo com que toda a natureza esteja
prejudicada pelos efeitos devastadores do pecado (Rm.8.20).
A ordem natural
das coisas seria: Adão e Eva seriam autoridade sobre os animais. Porém,
no capítulo 3, Eva se deixou dominar pela serpente. Ocorreu então uma
inversão da ordem e, por conseqüência, o caos moral e espiritual se
instalou. Naquele mesmo capítulo, Deus estabeleceu a autoridade do homem
sobre a sua mulher. Daí em diante, o homem não dominaria naturalmente
sobre os animais nem sobre os poderes demoníacos. Deus disse à serpente:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua semente e o seu
descendente. Ele te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”
(Gn.3.15). O homem tornou-se presa dos animais e vítima das forças
naturais e espirituais. O ambiente se tornou hostil. A vida do homem
passou a ser uma luta para conseguir a sobrevivência e resgatar, em
alguma medida, o domínio perdido.
Mais adiante, no
capítulo 6, está a história de Noé. Ao colocar e controlar os animais na
arca, ele demonstrou que o domínio ainda era possível para aqueles que
se colocassem em obediência debaixo da autoridade divina.
No Novo
Testamento, Jesus veio resgatar a autoridade que o homem havia perdido.
Na cruz isto foi consumado e, ao ressuscitar, Cristo recebeu toda a
autoridade nos céus e na terra (Mt.28.18). Ele, o último Adão (I
Cor.15.45), desfez o erro do primeiro homem. A nova Eva é a igreja. Está
novamente estabelecida a ordem divina de autoridade. Vivendo esta nova
realidade, todo cristão, como parte da igreja, está investido de
autoridade sobre serpentes, escorpiões e todo poder do mal e nada lhe
fará nenhum dano (Lc.10.17-19; Mc.16.17-18; At.28-3-6).
Entretanto, da
mesma forma como a serpente enganou Eva, corremos risco de sermos
enganados pelo Diabo, caindo em suas armadilhas e perdendo nossa
autoridade (II Cor.11.3).
GN.2.4-25 –
DETALHAMENTO DA CRIAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER.
A TEORIA DAS FONTES
Alguns eruditos
sugerem que a partir de Gênesis 2.4, temos outro relato da criação. O
texto que antecede esta parte, seria de uma origem e o que começa em 2.4
seria de outra. A primeira fonte chamada de “Eloísta”, por se referir a
Deus pelo nome “Elohim”, conforme se lê na bíblia hebraica. O texto
seguinte foi chamado de “Javista”, por se utilizar do nome “Javé” ou
“Iavé”. Esta teoria apóia a argumentação de que Moisés teria reunido
fragmentos escritos sobre a criação. De qualquer forma, nada disso
invalida ou lança dúvida sobre o texto bíblico.
Ambos os textos se
completam. No capítulo 1, a criação do homem já tinha sido narrada. O
capítulo 2, volta a este assunto, nos fornecendo detalhes da forma como
Deus criou o homem e a mulher, e como foi a relação de Deus com o ser
humano antes do pecado.
ANACRONISMO
A Assíria é
mencionada no capítulo 2, versículo 14, num contexto em que ainda não
existia nenhuma nação sobre a terra. O leitor inadvertido pode imaginar
tratar-se de um erro. Na realidade, é um anacronismo, isto é, uma
citação histórica fora de época. No tempo do autor, provavelmente o
próprio Moisés, a Assíria já existia e seu território estava próximo ao
local onde foi o Jardim do Éden. Isto é então citado no capítulo 2,
como uma informação antecipada. O mesmo ocorre no capítulo 10, quando
já se fala de diferentes idiomas, sendo que a divisão das línguas só
aconteceria no capítulo 11. São “parênteses” que o autor abre em sua
narrativa para inserir algumas informações que, embora deslocadas no
tempo, são úteis para uma compreensão histórica mais ampla. Nesses
momentos, percebemos um autor que lança um olhar sobre um passado
distante (6.4) e que, em alguns instantes, utiliza seu conhecimento
presente para enriquecer a narrativa. Os textos genealógicos normalmente
reúnem informações de épocas muito diferentes, quebrando a seqüência
cronológica entre os capítulos do contexto. Muitos outros casos
semelhantes ocorrem em Gênesis, conforme se pode observar em:
|
TEXTO |
ASSUNTO |
|
Gn.2.14 |
A Assíria
é mencionada antes do seu tempo. |
|
Gn.2.24 |
“Deixará o
homem seu pai e sua mãe”. Adão não tinha pai e mãe. |
|
Gn.10.14 |
Referência
aos filisteus. |
|
Gn.13.10 |
Antecipa a
destruição de Sodoma e Gomorra. |
|
Gn.14.2,8 |
Menciona
Zoar, quando o nome da cidade era Belá. |
|
Gn.14.3 |
Menciona o
Mar Salgado quando o seu nome era Sidim. |
|
Gn.14.7 |
Menciona
Cades, quando o nome da cidade era En-Mispate. |
|
Gn.14.17 |
Menciona o
Vale do Rei quando seu nome era Vale de Savé. |
O QUE ERA BOM E O
QUE NÃO ERA.
Depois de criar
todas as coisas, Deus viu que era bom (1.4, 10, 12, 18, 21, 25, 31). Em
2.18, porém, Deus viu algo que não era bom: a solidão do homem. Isto
nos mostra o quão importante é o relacionamento humano, o casamento, a
família, o amor e o companheirismo (Cf. Ec.4.9-12).
O QUE DEUS NOS DÁ
E O QUE ELE NOS PEDE (1.29; 2.16,17)
Deus colocou à
disposição de Adão e Eva no Éden uma grande variedade de árvores
frutíferas. Entretanto, ordenou que eles não comessem do fruto da
árvore do conhecimento do bem e do mal. O que ele deu ao homem foi
infinitamente mais do que aquilo que ele exigiu. Contudo, queremos até
aquilo que não é nosso. Afinal, tudo foi feito por ele e a ele
pertence. Provavelmente, o homem deixou de comer de muitos frutos que
foram feitos para ele, mas fez questão de comer daquele que foi
proibido.
Não coma todos os
frutos. Existe uma “reserva divina”. Isto pode ser comparado com as
ofertas que fazemos ou com a ajuda que damos aos necessitados. Na lei de
Moisés vemos este princípio. Os ceifeiros deviam deixar para trás os
“rabiscos”, que era um resto de colheita. Isto deveria ficar para o
estrangeiro e o pobre. Contudo, a cobiça humana pode levá-lo a não abrir
mão de coisa alguma e isto pode ser a causa da sua ruína.
Deus deu ao homem
vontade própria, direito de escolha, muitas coisas para o seu deleite.
Contudo, existe um limite. Em todas as áreas da nossa vida existem
limites que precisam ser respeitados. Precisamos começar respeitando o
que é de Deus e, em seguida, o que é do próximo. “Dai a César o que é
de César e a Deus o que é de Deus.” Não podemos querer tudo para nós
mesmos, ou esperar uma liberdade absoluta, que nos permita ter tudo,
usar tudo, como se cada um de nós fosse o centro do universo.
GN.3.1-24 – O
PECADO DO HOMEM E SUA EXPULSÃO DO ÉDEN.
No capítulo 3,
Satanás entra em cena. Como não havia nenhum ser humano disponível para
ele, já que Adão e Eva ainda não tinham pecado, o inimigo usou a
serpente, que foi o primeiro médium. O Diabo faz propaganda enganosa a
respeito do pecado. “Sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”. Ele só
mostra os benefícios aparentes, imediatos e temporários, ocultando os
malefícios profundos, futuros e permanentes (Gn.3 e Mt.4). Uma visão
imediatista pode tornar o pecado algo muito interessante. Assim, por um
prazer imediato, sacrifica-se o futuro. Foi o caso de Esaú, quando, por
uma refeição, vendeu seu direito de primogenitura (Gn.25.29-34;
Hb.12.16-17).
O conhecimento do
bem e do mal poderia parecer algo desejável. Porém, o conhecimento do
mal, no caso humano, significou a aceitação do mal, uma experiência
profunda e amarga com o Maligno.
O homem não sabia
a profundidade do abismo em que estava entrando. Muitos estão buscando
um conhecimento ainda mais profundo do mal. São aqueles que se dedicam
ao ocultismo. Paradoxalmente, talvez imaginem que o mal seja bom. Mas
tudo isso está ligado à concupiscência (Gn.3.6; I João 2.15-17;
Tg.1.14-15), o desejo de ganhar mais e mais e mais, além de tudo aquilo
que Deus já nos deu. O desejo, em certa medida, é legítimo, mas a cobiça
pode levar o homem às profundezas do inferno. Como saber a diferença? A
cobiça é o desejo pelo proibido, por aquilo que pertence ao próximo, ou
pelo excesso desenfreado de posses materiais ou prazeres carnais.
Desejando mais do
que era permitido, o homem perdeu até aquilo que Deus lhe tinha dado
graciosamente. Quantos jovens perdem cedo suas vidas por quererem o
prazer das drogas e da devassidão sexual. Perdem todo o prazer de uma
vida pelo prazer de um momento. O pecado é uma forma de perder o que
Deus nos deu, mas isto não é o pior. O pecado nos faz perder o próprio
Deus e o prazer de estar em sua presença. Muitas vezes, Deus até não
nos toma o que nos deu. Nós mesmos destruímos tudo, como fez o filho
pródigo com a herança paterna.
A ARTIMANHA DO
INIMIGO
“Foi assim que
Deus disse: não comereis de toda a árvore do jardim?”
O Diabo usou a
própria palavra de Deus para levar o homem ao pecado. Ele quer nos
fazer pensar que tudo é proibido, que estamos presos pelas ordens de
Deus. Assim, ele nos induz a pensar que possa existir liberdade fora dos
padrões divinos.
Ainda hoje, o
inimigo usa a palavra de Deus, como fez na tentação a Jesus (Mt.4).
Vemos nisso, uma fachada religiosa do Diabo. Ele parece trazer em seus
lábios uma mensagem divina. Como disse Paulo, ele se transfigura em anjo
de luz. Contudo, existe uma pitada de veneno em suas palavras. Ele
torce a palavra de Deus, adaptando-a aos seus próprios fins. Muitas
religiões utilizam a bíblia para justificar suas doutrinas malignas.
Desse modo, uma quantidade infinita de heresias vão surgindo
incessantemente sob o rótulo de “conhecimento do bem e do mal”.
POR QUÊ HAVIA UMA
ÁRVORE MALIGNA NO JARDIM?
Esta é uma das
perguntas mais intrigantes que se pode fazer a respeito da bíblia e da
criação. Por quê o mal existe? Como ele surgiu? Para quê? Quem o fez?
Este assunto perturba aos estudiosos e teólogos de todos os tempos.
Existe uma divisão entre os eruditos. Alguns afirmam que Deus criou o
mal. Outros negam. Sabemos que Deus não criou o pecado, mas permitiu
que ele entrasse no mundo. De qualquer forma, sabemos que, em última
análise, Deus, em sua soberania, poderia impedir o pecado ou eliminá-lo
por ocasião do seu surgimento. Ele poderia ter aniquilado Satanás e
seus anjos quando estes pecaram. Contudo, não o fez. Portanto, ele tem
algum propósito nisso.
Não temos a
pretensão de responder satisfatoriamente a esta questão mas o nosso
parecer é que Deus não destruiu o mal por ver que ele seria útil de
alguma forma. Como poderia haver liberdade de escolha se o mal não fosse
uma possibilidade concreta? Deus poderia ter criado robôs, que o
serviriam com perfeição eternamente. Contudo, que valor teria isso? O
valor do amor está na possibilidade de sua inexistência. Se somos livres
para amar e amamos, isto é valioso. Se fôssemos programados para amar,
isto não teria nenhum valor.
O questionamento
sobre a origem do mal e o seu propósito pode render discussões sem fim.
Contudo, não nos esqueçamos do mais importante: rejeitar o mal e
escolher o bem (Is.1.16-17).
A FUGA DO HOMEM
O sentimento de
culpa dominou o homem assim que o pecado foi cometido. Ele passou a ter
consciência de si mesmo, no sentido mais negativo que isso possa ter.
Olhou para si mesmo e viu que estava nu. Sentiu necessidade de se
cobrir, de se esconder, de fugir.
A santidade nos
cobre e nos protege, mas o pecado nos deixa vulneráveis. A consciência
nos manda fugir, esconder, negar o erro e tentar transferir a culpa para
os outros.
Assim, Adão e Eva
tentaram se esconder de Deus (3.8), como se isso fosse possível.
Fizeram vestes insuficientes para se cobrir (3.7). Depois Adão tentou
jogar a culpa sobre Eva e esta sobre a serpente (3.12-14) que, não
tendo a quem acusar, calou-se.
Mais tarde, quando
Caim matou seu irmão, também sentiu esse impulso de fuga, e imaginou que
podia se ausentar da presença de Deus (4.14). Muitos estão fugindo de
Deus. Evitam a igreja, a bíblia, o evangelho. Não fuja, pois o Senhor
está em todos os lugares. Não adianta correr de Deus. Corra para Deus.
A consciência da
própria nudez faz com que o homem faça roupas para si. O ser humano tem
consciência da sua culpa, sua miséria e degradação. Procura então
criar religiões, filosofias, filantropias, e outros artifícios para
apaziguar sua consciência. Suas roupas podem até ser bonitas, mas não
cobrem o pecado. Podemos estar cobertos por cultura, conhecimento,
posições, títulos, fama e vanglória, mas nada disso limpa o nosso pecado
nem nos justifica perante Deus.
Deus chamou o
homem: “Adão, onde estás?” Ainda hoje ele chama o homem. Deus quer ter
comunhão conosco. Quer nos perdoar e nos restaurar.
Ao invés de fugir,
a bíblia nos exorta a nos aproximarmos de Deus (Hb.4.16), com o rosto
descoberto (II Cor.3.18), sabendo que todas as coisas estão nuas e
patentes diante de seus olhos (Hb.4.13). Ao invés de encobrir nossos
pecados ou tentar lançar a culpa sobre os outros, devemos reconhecer
nossas falhas e confessá-las ao Senhor.
Após aquele
momento de confronto de Adão e Eva com Deus, o Senhor tomou duas
atitudes: determinou o castigo pelo pecado e fez roupas para cobrir o
homem (3.21). Vemos aí sua justiça e sua misericórdia. Como Pai, ele
corrige mas também acolhe. Para fazer roupas de peles, Deus precisou
sacrificar um animal. Este foi o primeiro sacrifício pelo pecado,
simbolizando a futura morte de Jesus na cruz.
Com tudo isso,
Adão e Eva ainda foram expulsos do Paraíso. Mesmo que sejamos alvo da
misericórdia divina, as conseqüências do pecado são, normalmente,
inevitáveis.
Por meio do
sacrifício de Cristo, nossos pecados são cobertos de modo eficiente e
definitivo, pois este é o método divino para nos perdoar e nos
restaurar. Jesus morreu para que o caminho de volta ao paraíso pudesse
ser aberto. Novamente, pelos méritos de Cristo, poderemos ter acesso à
árvore da vida (Ap.2.7).
MALDIÇÕES PELO
PECADO - Gn. 3.14-19; 4.11.
Maldição
(mal+dicção) é falar mal contra alguém. A palavra de Deus tem poder
criativo. Quando ele promete ou ordena um castigo, isto se chama
“maldição”. O castigo é então uma forma de mal criado por Deus. Não se
trata de algo pertencente ao Diabo, embora ele possa, por meio de uma
maldição divina, ser autorizado a agir na vida de alguém. Ele mesmo
está debaixo da maldição divina.
“A maldição sem
causa não virá” (Pv.26.2). Acima de toda crendice ou superstição, toda
maldição está, em sua origem, ligada ao pecado. Ainda que alguém
pronuncie uma maldição, ela só terá guarida na vida daquele que está
vivendo em pecado.
A maldição
proferida contra Adão atingiu diretamente a terra. Afinal, o homem foi
feito da terra e é parte dela. Seu trabalho passou a ser penoso e
doloroso. A maldição de Eva foi a multiplicação de suas dores de parto
e a sujeição ao seu marido. Mesmo com a conversão, estas maldições
permanecem. O Senhor nos resgatou da maldição da lei (Gálatas 3.13), mas
Gênesis 3 não está no período da lei.
PROMESSA DE
SALVAÇÃO
Em Gênesis 3.15
está a primeira profecia messiânica. Falando à serpente, Deus disse:
“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua semente e o seu
descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.
Este texto fala de
duas sementes, duas descendências: a descendência da mulher, por meio da
qual nasceria Jesus, para esmagar a cabeça do inimigo; e a descendência
da serpente, ou seja, os filhos do diabo.
A partir daí, a
história bíblica apresenta estas duas genealogias que se desenvolvem
paralelamente. Temos sua representação simbólica no capítulo 4. Caim
representando a semente maligna e Abel representando a semente bendita.
Depois temos as descendências de Cão e Sem, Ismael e Isaque, Jacó e
Esaú, etc. No Novo Testamento, João Batista se refere aos fariseus como
“raça de víboras”. Estava ali “bem” representada a descendência da
antiga serpente. Em todos as épocas temos filhos de Deus sendo
perseguidos pelos filhos do Diabo, até chegarmos a Jesus e Judas
Iscariotes.
Os filhos de Deus
sofrem algum dano em algum momento. O diabo lhes fere o calcanhar.
Afinal, esta é a única parte de contato entre ambos, pois o inimigo está
debaixo dos nossos pés, tendo sua cabeça esmagada (Rm.16.20).
EXPULSOS DO JARDIM
Após o pecado,
Adão e Eva foram expulsos do Éden. Até então, não conheciam a palavra
“perda”. Só sabiam receber as bênçãos de Deus. Agora, começariam a
colher os resultados do pecado. Quantas pessoas estão acostumadas à
bondade divina e acabam abusando. Não sabem, ou vivem como se não
soubessem, que Deus é justo e trará a retribuição pelo pecado.
Adão e Eva
perderam a maravilhosa comunhão que tinham com Deus, perderam o acesso
às árvores frutíferas do jardim, e principalmente à árvore da vida.
Deus colocou dois querubins e uma espada que impedia o retorno ao
paraíso. Vemos a ação de Deus contra o homem, mas não podemos nos
esquecer de que a iniciativa de todo esse processo foi do próprio ser
humano que agiu contra Deus.
O caminho para o
Éden foi bloqueado. Não podemos pensar que as bênçãos de Deus estarão à
nossa disposição por tempo indefinido ou na hora que desejarmos. Não
podemos nos dar ao luxo de perder as oportunidades que o Senhor nos dá,
pois amanhã poderá ser tarde demais. Pode haver uma segunda chance, mas
isto não é garantido. Se a recuperação da bênção não for impossível,
certamente será muito difícil. Não podemos negociar nossos direitos
espirituais, pois amanhã pode ser tarde para tentar recuperá-los. Foi o
que aconteceu com Esaú. Vendeu seu direito de primogenitura e depois não
teve como recuperá-lo, apesar de ter implorado com lágrimas
(Heb.12.16-17).
Seguindo o relato
bíblico, só no Apocalipse é que novamente se falaria a respeito da
árvore da vida e da possibilidade de acesso a ela (Ap.2.7). Quantos
milhares de anos terão passado até que esse dia chegue!
Outro exemplo é a
experiência do povo de Israel diante da terra prometida. Não creram na
promessa de Deus e vacilaram diante dos gigantes. Por isso, perderam
aquela oportunidade de tomar posse de Canaã e foram condenados a vagar
pelo deserto durante 40 anos.
Não perca a
oportunidade de servir a Deus hoje. Não desvalorize o que Deus oferece
hoje. Este é o tempo aceitável, o dia da salvação (II Cor.6.2).
ADÃO E EVA –
HISTÓRIA OU LENDA? SENTIDO LITERAL OU SIMBÓLICO?
A história de Adão
e Eva é motivo de escárnio por parte daqueles que não aceitam a bíblia
como palavra de Deus. Tratam o relato como mito. Existem até alguns
teólogos que consideram a narrativa como uma parábola, portadora de
sentido simbólico apenas. Se assim fosse, o pecado e a maldição também
seriam simbólicos. Contudo, sabemos que são reais. Além disso, vários
autores bíblicos mencionam a história de Adão como literal (Jó 31.33;
Salmo 62.9; Rm.5.14-17; I Cor.15.22; Jd.1.14). Se negarmos a
literalidade dessa história, estaremos lançando por terra as bases das
doutrinas acerca do pecado e da salvação.
As genealogias
bíblicas ligam Adão à história humana e, particularmente, à genealogia
de Jesus. Portanto, sua história é tão real quanto a história de Cristo
(Gn.5.3; Lc.3.38).
GN.4.1-26 – CAIM E
ABEL. O PRIMEIRO HOMICÍDIO. A DESCENDÊNCIA DE CAIM.
Quando Eva deu à
luz o seu filho Caim, disse: “Alcancei do Senhor um varão”. Isto nos
faz pensar que talvez Eva tivesse visto em Caim a possibilidade de
cumprimento da promessa do “descendente” que esmagaria a cabeça da
serpente. De qualquer forma, a vida de Caim não representou nada de
positivo para seus pais. Pelo contrário, trouxe-lhes grande amargura.
Em Caim e Abel
temos o primeiro exemplo de religiosidade humana, entendida como um
esforço para se alcançar a reconciliação com Deus. Contudo, tal cenário
religioso tornou-se o motivo de um assassinato. Vemos que as guerras
religiosas, sempre presentes na história da humanidade, têm suas raízes
na primeira família. Caim tomou atitudes para buscar a Deus, mas
mostrou-se hostil com o seu próprio irmão. Esta é uma contradição que
acontece também conosco. Se não cuidamos do nosso irmão, do nosso
próximo, nossa religião e nossa espiritualidade tornam-se inúteis (I
Tm.5.8; Tg.1.27; I João 4.20). No Novo Testamento, Jesus resume a lei no
amor a Deus e ao próximo. Se não houver o segundo, o primeiro será
bastante questionável.
Caim e Abel
trouxeram ofertas ao Senhor. Aparentemente, ambos eram pessoas boas e
bem intencionadas. Assim, toda atividade religiosa pode causar uma
impressão de espiritualidade, bondade e justiça. Contudo, a bíblia
mostra que Deus avalia o ofertante antes de aceitar ou não a sua oferta:
“Atentou o Senhor para Abel e para a sua oferta, mas para Caim e para a
sua oferta não atentou” (Gn.4.4-5). As práticas, costumes e rituais
religiosos podem representar uma fachada que não corresponde ao conteúdo
do coração. Isto ficou comprovado na vida de Caim e Abel. Depois do
culto que realizaram, Abel se mostrou bom, mas Caim agiu de forma
pecaminosa. Nosso conhecimento de Deus e nossa comunhão com ele deve
refletir-se em mudança de caráter. De outro modo, nossa religião é
enganosa. Examinando o livro de Levíticos, verificamos que as leis
normatizavam não apenas os rituais religiosos, mas incluía diversos
aspectos da vida diária do povo de Deus.
No capítulo 3 de
Gênesis, lemos a respeito do primeiro pecado, que consistiu na busca do
benefício pessoal além dos limites estabelecidos por Deus. A partir daí
acontece a multiplicação do pecado, tanto em quantidade como em
gravidade. As consequências e maldições também se multiplicam (4.11). No
capítulo 4, temos egoísmo, inveja e crueldade, chegando ao ponto
culminante do homicídio. Pouco depois, um homem, Lameque, mata dois
(4.23). Seu pecado foi duas vezes o de Caim, mas o seu castigo foi
setenta vezes maior (4.24 – Versão Almeida Corrigida). “Um abismo chama
outro abismo.” (Salmo 42.7).
Na medida em que o
pecado se multiplica, percebe-se um afastamento entre Deus e o homem.
Mesmo após o crime cometido, Deus ainda falava diretamente com Caim.
Depois, a separação entre o homem e Deus tornou-se tão grande que ele
passou a falar apenas com algumas pessoas especiais e, muitas vezes, de
forma indireta, por meio de sonhos.
Um ponto muito
questionado na história de Caim é o seu casamento (4.17). Algumas
pessoas perguntam: “Com quem Caim se casou, se a única mulher existente
era sua mãe?” A leitura do texto bíblico pode nos fazer pensar assim.
Porém, uma análise um pouco mais profunda nos fará compreender que o
relato não é exaustivo a ponto de nos apresentar todos os detalhes da
história de Adão e seus filhos. Em Gênesis 5.5, lemos que Adão viveu
novecentos e trinta anos. Não temos, nos quatro capítulos anteriores, a
história completa de Adão, mas apenas alguns fatos considerados
relevantes para o propósito do autor bíblico. A narrativa “salta” no
tempo e omite personagens irrelevantes. Isto acontece em toda a bíblia.
De outro modo, não haveria limite para a extensão das Sagradas
Escrituras.
Portanto, Adão e
Eva devem ter tido muitos filhos e filhas antes de Caim e Abel. Quando
Caim matou seu irmão, já existiam muitas outras pessoas que já dividiam
entre si a terra. Por isso, Caim foi para a “terra de Node” e se casou.
É evidente que, antes do casamento de Caim, outras famílias surgiram.
Para que a segunda família fosse formada, foi necessário um casamento
entre irmãos, filhos de Adão e Eva. Não podia ser de outra forma e isto
não seria um erro, pois não havia nenhuma proibição divina nesse
sentido. Muito tempo depois, na época de Moisés, Deus proibiu a união
entre irmãos e outros parentes próximos (Lv.18.9).
GN.5.1-32 – A
GENEALOGIA DE ADÃO ATÉ NOÉ. ENOQUE ANDOU COM DEUS.
Grande parte dos
autores bíblicos apresenta genealogias em seus escritos. Estas listas
familiares tornam-se evidências da seriedade do autor e conferem ao
texto aspecto documental. Personagens lendários não necessitam de
genealogia, ou melhor, não a possuem.
No capítulo 5, o
autor percorre 1558 anos de história da humanidade, mas cita
nominalmente apenas 13 personagens. Seu propósito era apenas chegar a
Noé para narrar o episódio do Dilúvio. O que se diz sobre a maioria dos
13, é algo bastante comum: nasceram, tiveram filhos e filhas, e
morreram. Enoque, porém, é colocado em evidência porque ele era
diferente dos demais. É verdade que ele nasceu, teve filhos e filhas,
afinal não era um alienígena. Contudo, o texto não diz que ele morreu.
Numa época de corrupção, Enoque andou com Deus. Tendo sido diferente,
teve um rumo diferente. Todos os outros personagens do capítulo 5
morreram, mas isto não é dito a respeito de Enoque. Deus o tomou para
si. Desse modo, ele se tornou um protótipo do arrebatamento da igreja.
Nós, servos de
Deus, precisamos andar com ele. O cristianismo não é meramente uma
religião, é uma vida de relacionamento com Deus.
Quem anda com Deus
não é livre para fazer qualquer coisa, mas é livre de muitas coisas
ruins. Quem anda com Deus não é livre para ir a qualquer lugar, mas
somente aos lugares aonde Deus vai. Contudo, andar com Deus não é
restrição para a nossa liberdade. Pelo contrário, é garantia de
liberdade, pois quem anda com Deus não pode ser impedido de prosseguir.
Andar com Deus,
como fizeram Enoque (5.24) e Noé (6.9), significa viver com ele e não
apenas realizar atos religiosos em sua homenagem. Andar com Deus é
incluí-lo em todos os setores da nossa vida. Andar com Deus é percorrer
o caminho de Deus. Certamente, não será ele que andará pelos nossos
caminhos. Isto significa fazer a sua vontade, escolher o seu rumo,
aceitar a sua direção. Conseqüentemente, nós o teremos como
companheiro, amigo e amparo constante. Andando com Deus, chegaremos a
um bom lugar, onde estaremos para sempre com o Senhor.
Enoque viveu 365
anos antes de seu desaparecimento. A bíblia diz que depois dos 65 anos,
ele andou com Deus durante 300 anos. Isto é perseverança. É
persistência e determinação. Não adianta andar com Deus um dia e depois
abandonar o seu caminho. Precisamos andar com Deus até chegarmos ao
final desta viagem sobrenatural. Andar com Deus é uma expressão que pode
ser interpretada como crescimento espiritual, progresso espiritual, ou,
usando a linguagem do Novo Testamento, “andar em Espírito” (Gálatas
5.16) no caminho que é Cristo (João 14.6).
UTILIDADE DAS GENEALOGIAS
A seguir
apresentamos a genealogia do capitulo 5 de Gênesis.
|
Personagem |
Idade
quando gerou o personagem seguinte. |
Idade por
ocasião de sua morte |
|
ADÃO |
130 |
930 |
|
SETE |
105 |
912 |
|
ENOS |
90 |
905 |
|
CAINÃ |
70 |
910 |
|
MAALALEEL |
65 |
895 |
|
JEREDE |
162 |
962 |
|
ENOQUE |
65 |
----- |
|
MATUSALÉM |
187 |
969 |
|
LAMEQUE |
182 |
777 |
|
NOÉ |
502 * |
|
|
SEM, CÃO E
JAFÉ |
|
|
A leitura das
genealogias é considerada normalmente como algo cansativo, monótono e
inútil. Contudo, não é assim, pois através delas podemos extrair muitas
informações. Algumas delas são apenas para satisfazer nossa curiosidade.
Outras podem até ser úteis no estudo bíblico.
A genealogia acima
nos permite as seguintes observações e algumas conclusões:
- São apresentados 13 nomes que vão, desde Adão até
os filhos de Noé.
- Somando as idades da coluna central, concluímos
que desde a criação de Adão até o nascimento de Sem, passaram-se 1558
anos.
- Em todo esse tempo, devem ter nascido centenas ou
milhares de pessoas. Contudo, o autor teve interesse de mostrar apenas
os nomes que ligavam Adão a Noé.
- Os nomes das mulheres não são citados na
genealogia.
- Notamos que a descendência de Caim foi extinta
com o dilúvio.
- O dilúvio aconteceu no ano 1656 após a criação do
homem, pois Noé tinha então 600 anos (Gn.7.11).
- Curiosidade: durante parte da vida do pai de Noé,
Adão ainda era vivo.
- Curiosidade: o homem que mais viveu, Matusalém,
parece ter morrido no dilúvio, pois morreu no ano em que Noé teria 600
anos.
- Como os homens viviam séculos, tinham seus filhos
bem mais tarde do que acontece hoje.
* O texto de
Gênesis 5 diz que Noé viveu 500 anos e teve três filhos, Sem, Cão e
Jafé. Este texto contém um arredondamento e um resumo dos fatos. Isto
poderia levar a crer que aos 500 anos de idade Noé teve três filhos
gêmeos, mas não foi assim. Em Gn.10.21 vemos que Sem era o mais velho
entre os filhos de Noé. Portanto, não eram gêmeos. Em Gn.11.10 vemos
que, 2 anos após o dilúvio, Sem completou 100 anos. Sabendo que o
dilúvio aconteceu aos 600 anos de Noé (Gn.7.6), concluímos que então Sem
tinha 98 anos, tendo nascido quando Noé tinha 502 anos.
Há quem questione
as cronologias que se baseiam nas genealogias, alegando que possa haver
omissão de personagens e, assim, omissão de períodos indefinidos de
tempo.
GN.6.1-22 – A
CORRUPÇÃO DA HUMANIDADE. O ANÚNCIO DO DILÚVIO.
O pecado se
multiplicou e a humanidade se tornou perversa e abominável aos olhos de
Deus (6.5,11,12,13). Diante disso, o Senhor resolveu destruir os homens
e os animais por meio de um dilúvio.
O capítulo 6 nos
traz dois temas de difícil entendimento. O primeiro é sobre a união
entre os filhos de Deus e as filhas dos homens. Há quem defenda a tese
de que os “filhos de Deus” seriam anjos e as filhas dos homens seriam
mulheres normais. Contudo, tal afirmação é contrária ao contexto
bíblico geral, visto que:
- Os
anjos não têm sexo pois foram todos criados de uma só vez e não se
multiplicam (Mt.22.30).
- Os
anjos não têm corpos físicos. Daí, não poderiam se relacionar com as
mulheres.
Outra hipótese é
que os “filhos de Deus” sejam os descendentes de Sete e que as “filhas
dos homens” sejam as descendentes de Caim. Embora esta alternativa seja
plausível, não existem muitos dados para torná-la conclusiva. E,
afinal, se a descendência de Sete era considerada como os “filhos de
Deus”, por quê apenas a família de Noé se salvou do dilúvio? Portanto,
nesse ponto temos mais perguntas do que respostas.
A outra questão
difícil é a afirmação de que Deus tenha se arrependido de ter criado os
homens e os animais. Segundo I Samuel 15.29, Deus não se arrepende.
Sugerimos a seguinte solução. Arrependimento significa mudança de
direção. Nesse sentido, é compreensível que Deus tenha mudado o rumo
das coisas devido a motivos diversos, tais como o bom ou o mal
comportamento dos homens. Compreendendo arrependimento como peso pela
culpa, então é correto afirmar que o Senhor não se arrepende, visto que
ele não peca nem comete erros.
Diante de toda a
perversidade dos homens, Deus determinou que os destruiria através do
dilúvio. Isto aconteceria dentro de 120 anos. Vemos em cena a justiça e
a misericórdia divina. O dilúvio deveria vir como manifestação da
justiça. Por quê então ele não o enviou imediatamente? Para que Noé
tivesse tempo de construir a arca e para que seus contemporâneos
tivessem tempo de ser arrepender de seus pecados (I Pd.3.20).
Alguns interpretam
o versículo 3 do capítulo 6 como um novo limite para a idade humana.
Porém, isto não é verdade, pois, mesmo depois do dilúvio, muitas pessoas
viveram muito mais de 120 anos (Gn.11.11,13,15, etc).
A família de Noé
pode ser vista como um símbolo da igreja, que, se mantém pura no meio de
uma geração perversa. Enquanto o juízo destruirá a muitos, a igreja será
salva pelo Senhor. Em uma visão menos escatológica, as águas do dilúvio
são comparadas ao batismo cristão (I Pd. 3.21). Em suas profundezas
ficou o velho mundo, a velha vida, uma velha história. Depois dele, tudo
é novo.
A vida de Noé se
tornou um exemplo de fé e obediência (Hb.11.7). Noé recebeu a palavra de
Deus e creu. Sua fé iria, necessariamente, produzir ação. Todo aquele
que ouve a palavra de Deus e tem fé, precisa agir (Tg.2.26).
A obediência de
Noé seria a realização de uma tarefa difícil. Estaria fazendo
algo que nunca fizera antes, algo estranho e aparentemente
absurdo. Porém, Noé estava seguro, pois tinha contato direto com
Deus.
A obediência de
Noé, ao construir a arca (6.22), tornou-se um ato profético para a sua
geração. Muitos deviam considerá-lo louco por estar construindo aquele
enorme navio em terra seca. Assim acontece com aqueles que se preparam
para a vinda do Senhor Jesus. Noé era um pregador da justiça (II
Pd.2.5). Porém, sua pregação não foi aceita, senão pela sua própria
família. Jesus disse que os dias que antecederiam a sua segunda vinda
seriam como no tempo de Noé. A palavra de Deus está sendo pregada para
que todos se salvem. Porém, a maioria rejeita e escarnece da pregação do
evangelho.
É interessante
observamos que a família de Noé se salvou pela obediência ao chefe da
casa. Talvez, nenhum deles ouvisse diretamente a voz de Deus, mas foram
salvos porque obedeceram àquele que conhecia Deus, conhecia sua palavra
e seus planos. Quando, depois do dilúvio, o filho Cão se mostrou
rebelde, sua vida caiu na desgraça. Isto nos mostra a importância da
sujeição às autoridades constituídas por Deus para o nosso próprio bem.
GN.7.1-24 – O
DILÚVIO.
Em resposta à
corrupção humana, Deus resolveu enviar o dilúvio sobre a terra. Este foi
o primeiro ato de juízo divino sobre a humanidade e, assim como a
destruição de Sodoma e Gomorra, pode também ser visto como símbolo do
Juízo Final.
A arca de Noé pode
ser vista como símbolo do Senhor Jesus, pelo fato de ter salvado aquela
família ou podemos compará-la também à igreja. Uma interpretação
alegórica não elimina a outra. Se estamos “em Cristo” (II Cor.5.17)
também estamos na igreja, fazemos parte dela. A igreja é o lugar de
acolhimento para os salvos. Lá fora estão os perdidos. Porém, sua porta
ainda não está fechada. Os que estão dentro podem, inclusive, sair, se
quiserem, mas esta é uma decisão muito arriscada, pois a oportunidade de
retorno não será eterna. E, lembrando uma mensagem do Pr.José Rego do
Nascimento, é interessante observar que Moisés soltou um corvo e este
não voltou para a arca porque encontrou lá fora alguma podridão que
combinava com sua própria natureza. A pomba, entretanto, retornou para a
arca, pois naquele “mundo condenado” nada havia que pudesse agradá-la
(Gn.8.6-9).
A igreja é um
lugar seguro, onde temos proteção, alimento e direção divina. Contudo,
dentro dela estão pessoas diferentes e a convivência pode trazer alguns
problemas, mas é preciso superar tudo isso através do amor, sabendo que,
lá fora, não existe lugar seguro, pois o mundo jaz no maligno.
CARACTERÍSTICAS DA
ARCA DE NOÉ
Material: madeira
de cipreste
Revestimento de
betume.
Comprimento: 300
côvados (aproximadamente 150 metros).
Largura: 50
côvados (aprox. 25 metros).
Altura : 30
côvados (aprox. 15 metros).
Com três andares,
uma porta e uma janela.
QUESTÕES NUMÉRICAS
Alguns números
aparecem com freqüência no texto bíblico. No judaísmo, muitos deles têm
significado espiritual, conforme os exemplos abaixo e referências de seu
uso em Gênesis.
|
NÚMERO |
SIGNIFICADO |
REFERÊNCIAS |
|
3 |
Divindade |
Gn.6.16;
15.9; 18.2 |
|
7 |
Perfeição,
plenitude |
Gn.
2.2-3; 7.2,3,4,10; 8.4,10,12; 29.18,27; 33.3 |
|
40 |
Tribulação; provação. |
Gn.7.4,17;
8.6,10,12 |
Trabalhar com a
questão numérica na bíblia é algo interessante, porém perigoso. É
inegável que os números tenham sentido espiritual, mas não podemos
aplicar esta idéia a todo texto. Precisamos estar cientes de que a
numerologia é também um dos ramos do ocultismo. Certamente, o Diabo
toma coisas de Deus e usa para seus fins escusos. Portanto, estejamos
atentos aos possíveis significados espirituais dos números apresentados
na bíblia, mas o façamos cuidadosamente e sem atitudes extremas, como se
desejássemos interpretar todos os números bíblicos. Em muitos
versículos o número é simplesmente um número e mais nada.
O número 3 está
vinculado à divindade. Isto é bastante sugestivo para nós que cremos na
trindade divina. Como tricotomistas cremos que o homem tenha corpo, alma
e espírito, sendo também uma trindade. Em algumas situações, o diabo
toma o número 3, tentando imitar Deus. Em Apocalipse, por exemplo, temos
a “trindade satânica” formada pelo Dragão, a Besta e o Falso Profeta.
Três foi o número de andares da arca de Noé.
O número 7
significa perfeição ou plenitude. No sétimo dia, Deus descansou da obra
da criação. O Sétimo dia foi santificado. Daí veio a duração da nossa
semana. O diabo também usa o número sete tentando simular perfeição.
Deus mandou que Noé colocasse sete casais de cada animal limpo na arca.
Algumas ações relacionadas ao dilúvio foram realizadas após o prazo de
sete dias.
O número 40 está
relacionado à provação, tribulação, tentação e outras situações
difíceis. Alguns homens de Deus jejuaram durante 40 dias: Moisés, Elias
e Jesus. O povo de Israel viajou no deserto durante 40 anos. O dilúvio
durou 40 dias, embora Noé tenha ficado dentro da arca durante um ano e
10 dias.
A INEFICÁCIA DOS RECURSOS HUMANOS
Quando começou a
chuva, aquele povo deve ter se assustado, mas imaginavam que não havia
motivo para pânico. Afinal, bastava que se escondessem dentro de suas
casas. Depois, se chovesse muito, poderiam subir nas árvores ou nas
próprias casas. Os mais espertos tratariam de procurar lugares mais
altos, como as montanhas. O que eles não imaginavam é que nada disso
seria suficiente para salvá-los. Em Gn.7.19 está escrito: “As águas
prevaleceram excessivamente sobre a terra e todos os altos montes que
havia debaixo de todo o céu foram cobertos.”
Talvez já
estejamos sentindo as “primeiras gotas” do juízo divino sobre este mundo
perverso. Diante disso, as pessoas buscam vários tipos de solução e
refúgio. Alguns imaginam que sua própria bondade será suficiente para
salvá-los. Outros pensam que a religião poderá protegê-los. Muitos vêem
na educação a solução para os males que afligem a sociedade. Contudo,
tudo isso é inútil diante das conseqüências do pecado, diante dos
castigos divinos. A solução está em aceitar o plano de Deus para a
salvação do homem: reconhecimento do pecado, confissão, arrependimento,
fé no Senhor Jesus e sua aceitação como Salvador pessoal. Somente desta
forma é que entraremos no abrigo divino que nos preservará da perdição
eterna.
GN.8.1-22 – NOÉ
SAI DA ARCA.
A entrada de Noé
na arca foi no dia 17 do segundo mês do ano 600 de sua vida (Gn.7.11).
Ele saiu da arca no dia 17 do sétimo mês do mesmo ano (Gn.8.4). Vemos
que Noé ficou dentro da arca durante exatos 5 meses. O autor nos diz
que Noé esteve dentro da arca por 150 dias (Gn.8.3). Temos, portanto,
nesse período, 5 meses de 30 dias.
O calendário
israelita baseia-se no ciclo lunar, possui 12 meses de 30 e 29 dias, num
total de 354 dias. Cada mês começa na lua nova. Para fazê-lo coincidir
com o calendário solar, em cada período de 19 anos, 7 deles possuem 13
meses (de acordo com o dicionário Aurélio)
Com o fim do
dilúvio, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate (Gn.8.4). Este
era o nome de um planalto que hoje faz parte da Turquia, na Ásia
ocidental, onde estão as nascentes dos rios Eufrates e Tigre.
GN.9.1-19 –
ALIANÇA DE DEUS COM NOÉ.
As alianças são
muito importantes no livro de Gênesis. Certamente, numa época em que não
havia leis, ou se havia, elas ainda não eram suficientes para garantir a
ordem e o respeito, muitos homens procuravam fazer alianças entre si.
Nisso notamos que, os homens normalmente honravam sua palavras,
principalmente quando ditas em juramento, prática também comum em
Gênesis. Os mais fracos procuravam fazer aliança com os mais fortes.
Assim, não seriam destruídos por eles e ainda teriam proteção e maiores
recursos humanos e materiais para enfrentarem adversidades e inimigos.
As alianças
significavam compromisso, uma sociedade, um pacto de amizade e
cooperação. Eram confirmadas por palavra falada ou escrita dependendo da
época, pela troca de objetos entre os pactuantes, por uma refeição e
pela presença de testemunhas. Não havendo outras pessoas presentes,
invocava-se o próprio Deus como testemunha ou até mesmo um objeto, como
uma pedra, por exemplo. Toda aliança produzia direitos e obrigações de
ambas as partes.
Se a aliança com
homens já era tão interessante e importante, o que dizer de uma aliança
com Deus?
A primeira aliança
desse tipo, apresentada pela bíblia, foi o pacto de Deus com Noé, que
foi, de fato, um compromisso do Senhor com toda a humanidade e até mesmo
com os animais (Gn.9.9-10). O arco-irís é o símbolo daquela aliança,
segundo a qual, o mundo não mais será destruído pela água.
Naquele momento
Deus deu ordens a Noé (9.4-6) e lhe fez promessas (9.11,15). Temos aí
algumas determinações que, mais tarde, apareceriam como parte da lei
mosaica.
Curiosidade
Quando Deus criou
Adão e Eva, ele lhes deu a produção vegetal como alimento (Gn.1.29).
Depois do dilúvio, os homens foram autorizados a comer a carne de
animais (Gn.9.3).
GN.9.20-29 – A
EMBRIAGUEZ DE NOÉ E O PECADO DE CÃO.
O dilúvio
interrompeu aquele processo acelerado de degradação da humanidade,
contudo não o encerrou. O pecado não foi eliminado através do dilúvio.
Tendo saído da arca, Noé plantou uma vinha e se embriagou com o seu
vinho. Não havia nenhuma lei que o impedisse de se embriagar. Contudo,
já vemos naquele episódio os efeitos malignos da embriaguez que, mais
tarde seria desaconselhada (Ef.5.18). Noé perdeu seu controle e se
despiu dentro de sua tenda. Em seguida temos uma seqüência de males.
Seu filho Cão viu Noé nu e, ao invés de cobri-lo, levou o fato ao
conhecimento dos irmãos. Vemos aí o desrespeito de um filho ao pai.
Mesmo que estivesse errado, Noé deveria ser respeitado. Cão deveria ter
tomado providências para que a nudez de seu pai fosse coberta. No
entanto, além de nada fazer, se mostrou maldizente, levando o fato ao
conhecimento dos irmãos. Não é este mesmo o nosso erro quando tomamos
conhecimento do pecado alheio e o levamos ao conhecimento de outras
pessoas? Isto é maledicência. Cão expôs Noé ao ridículo, colocando em
risco sua honra e sua autoridade familiar.
Como conseqüência,
Noé amaldiçoou parte da descendência de Cão, e abençoou a Sem e Jafé
(9.25-27). O resultado histórico foi a destruição parcial dos cananeus
pelos semitas. Temos nesse texto a primeira bênção de primogenitura. Sem
era o primogênito de Noé (10.21). Observe que, embora Jafé tenha sido
abençoado, a bênção de Sem foi maior, pois ele seria o dono das tendas
onde Jafé habitasse (9.27).
GN.10.1-32 – A
GENEALOGIA DE NOÉ.
|
1a
GERAÇÃO |
NOÉ |
|
2a
GERAÇÃO |
SEM |
CÃO |
JAFÉ |
|
3a
GERAÇÃO |
Elão,
Assur, Arfaxade, Lude, Arã |
Cuxe,
Mizraim, Pute, Canaã |
Gômer,
Magogue, Madai, Javã, Tubal, Meseque, Tiras |
|
4a
GERAÇÃO |
Uz, Hul,
Géter, Más, Selá |
Sebá,
Havilá, Sabtá, Raamá, Sabtecá, Ninrode, Ludim, Anamim, Leabim,
Naftuim, Patrusim, Casluim, Caftorim, Sidom, Hete |
Aquenaz,
Rifá, Togarma, Elisá, Társis, Quitim, Dodanim. |
|
5a
GERAÇÃO |
Éber |
Sabá, Dedã |
|
|
6a
GERAÇÃO |
Pelegue,
Joctã |
|
|
|
7a
GERAÇÃO |
Almodá,
Salefe, Hazermavé, Jerá, Hadorão, Uzal, Dicla, Obal, Abimael,
Sabá, Ofir, Havilá, Jobabe. |
|
|
|
CIDADES,
NAÇÕES, POVOS E TERRAS HABITADAS |
De Messa
até Sefar, montanha do oriente. |
Na terra
de Sinear: Babel, Babilônia, Ereque, Acade, Calné.
Na Assíria
(Nínive, Reobote-ir, Calá, Resém).
Filistia
(Gaza, Gerar)
Canaã
(heteus, jebuseus, amorreus, girgaseus, heveus, arqueus, sineus,
arvadeus, zemareus, hamateus).
Sidom.
Sodoma,
Gomorra,
Admá,
Zeboim, Lasa. |
|
Na genealogia de
Gênesis 10, o autor não se interessou em apresentar as idades dos
envolvidos, mas queria identificar alguns povos com o respectivo filho
de Noé que lhes deu origem. Observamos que o autor interrompeu
rapidamente sua lista dos filhos de Cão e Jafé, mas foi mais longe
discriminando os descendentes de Sem. Tal descendência era mais
importante para o autor, pois daí surgiria o povo de Israel. Notamos no
quadro acima de onde vieram alguns povos inimigos de Israel: os
babilônios, filisteus, cananeus, etc. Vemos também a origem de Sodoma
e Gomorra. Todos estes eram filhos de Cão.
A descendência de
Sem é mostrada aqui até Jobabe. Depois, no capítulo 11, o autor vai
continuar a genealogia, tomando-a a partir de Pelegue para chegar até
Abrão.
GN.11.1-9 – A
TORRE DE BABEL.
O texto que fala
sobre os descendentes de Noé, dá destaque para um neto de Cão, chamado
Ninrode (10.8-11). Este se tornou um símbolo do Anticristo. Começando
como caçador, veio a ser rei e o início do seu reino foi Babel. Flávio
Josefo escreveu que, a torre de Babel foi feita com base no temor de um
novo dilúvio. Naquele mesmo lugar, mais tarde foi construída a cidade
da Babilônia, que viria a sediar um dos grandes Impérios da antiguidade.
Babel é uma
palavra hebraica que significa “porta de Deus”. O objetivo daquela torre
seria alcançar o céu. Até aí poderíamos ter uma visão positiva de Babel.
Contudo, nada havia de Deus naquele projeto. Era algo feito contra a
vontade de Deus, pois pretendia concentrar as pessoas naquele lugar,
evitando-se a dispersão sobre a face da terra (11.4). Porém, o que Deus
queria é que a terra se enchesse (Gn.1.28). Ele não ordenou que os povos
se concentrassem num só lugar.
A torre de Babel
pode ser interpretada como o esforço humano para alcançar o céu através
de seus próprios meios e méritos. Este é o esforço das religiões. Babel
é o oposto da igreja. Poderia ser vista como uma falsa igreja. O povo
de Deus se reúne em torno do nome de Jesus. As falsas religiões se
constroem sobre outros nomes (11.4), embora usem também o nome de Jesus.
A Babilônia
representa a religiosidade maligna que leva cativos os servos de Deus e
quer impedi-los de servi-lo. No apocalipse, essa cidade aparece como um
grande domínio que envolve religião, política e comércio. Provavelmente
será a sede do governo do Anticristo. Sobre ele e sua cidade cairá o
juízo divino.
O capítulo 10
sintetiza informações referentes a um período muito longo. Observe
menção antecipada a Babel (10.10 x 11.9), à Assíria (10.11), aos
filisteus (10.14), ao nascimento de Arfaxade (10.22 x 11.10). No
capítulo 11, o autor retoma a ordem cronológica da narrativa.
BABEL – UNIDADE
PARA O MAL
“Disse o Senhor: o
povo é um e todos têm uma só língua. Isto é o que começam a fazer; agora
não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer.” Gn.11.6
Este versículo nos
mostra um povo unido em torno de um projeto. A unidade é fundamental
para qualquer grupo que queira realizar algo. Sem unidade, o grupo se
torna um amontoado de pessoas. A unidade significa ter o mesmo
propósito, reunir forças e recursos, aplicando-os em um objetivo comum.
Quando isto se torna realidade, os planos se concretizam.
No caso em
estudo, vemos que até projetos malignos podem ser viabilizados quando
existe unidade. Quão unidos não deveriam ser então aqueles que buscam
causas nobres, aqueles que trabalham pelo reino de Deus?
Contudo, aquele
povo, embora unido, estava trabalhando num projeto que não tinha a
direção nem aprovação divina. Então, Deus interferiu para que eles não
fossem bem sucedidos. Eles achavam que poderiam ser independentes de
Deus. Até podiam mesmo, mas não para chegar ao céu.
ALEGORIA DA TORRE DE BABEL
Para que o projeto
fosse encerrado, Deus confundiu as línguas dos que trabalhavam na torre.
Assim, um não entendia o que o outro dizia, e a conseqüência foi a
separação. Por isso, Babel se tornou sinônimo de confusão. Não é assim
que estão muitas famílias, muitas empresas, muitos grupos sociais?
Estão tentando viver sem Deus, e o que conseguem? Confusão. Todos falam,
mas ninguém compreende. E muitas vezes o resultado é o caos, a falência,
a separação. Precisamos de Deus como arquiteto das nossas vidas.
Deixemos que o seu projeto prevaleça, pois só assim alcançaremos o céu.
GN.11.10-32 – A
GENEALOGIA DE SEM ATÉ ABRÃO.
Na seqüência do
capítulo 11 temos a genealogia de Sem, filho de Noé. Repetem-se então
algumas informações já apresentadas no capítulo anterior. Agora, o
propósito do autor é tão somente chegar até Abrão, o primeiro patriarca
dos hebreus, aquele que se tornaria o “pai da fé”. Até mesmo os crentes
em Jesus Cristo foram chamados de “filhos de Abraão” (Gál.3.29). Isto,
certamente, não é natural, quando se refere a nós, gentios. Porém, fomos
“enxertados” (Rm.11.17) na genealogia de Abraão, adotados por meio de
Jesus Cristo.
Até este ponto da
narrativa, o autor de Gênesis se referia à história da humanidade. Daí
em diante, a atenção se volta exclusivamente para a história de Israel,
que vai ocupar todo o Velho Testamento.
Apresentamos, a
seguir, a genealogia de Sem:
|
Personagem |
Idade
quando gerou o personagem seguinte. |
Idade por
ocasião de sua morte |
|
Sem |
100 |
600 |
|
Arfaxade |
35 |
438 |
|
Selá |
35 |
438 |
|
Héber |
34 |
464 |
|
Pelegue |
30 |
239 |
|
Reú |
32 |
239 |
|
Serugue |
30 |
230 |
|
Naor |
29 |
148 |
|
Terá |
70 |
205 |
|
Abrão |
Naor |
Harã |
|
|
|
|
|
Ló |
|
|
Observações e
conclusões:
- Os homens passaram a ter filhos bem mais cedo do
que acontecia em Gênesis 5.
- Os homens viviam bem menos do que naquele tempo,
quando muitos viviam mais de 900 anos.
- A tempo de vida foi diminuindo gradualmente,
embora alguns personagens vivessem um pouco acima da média de sua época.
- Sabendo que Sem nasceu quando Noé tinha 502
anos, e considerando a cronologia obtida pela genealogia do capítulo 5,
e somando as idades relacionadas na coluna central da tabela anterior,
concluímos que Abraão nasceu por volta do ano 1953, contando desde a
criação de Adão.
- Ló era sobrinho de Abrão.
- Naor, pai de Abrão, era servo de Deus
(Gn.31.53).
GN.12.1-20 – O
CHAMADO DE ABRÃO. SUA DESCIDA AO EGITO.
Abrão estava em Ur
dos Caldeus quando Deus o chamou, mandando-o para a terra prometida
(At.7.1-4). A cidade de Ur localizava-se na Mesopotâmia (Gn.24.10),
perto do rio Eufrates, chegando ao Golfo Pérsico, onde hoje se encontra
a cidade de Tell El-Muqayyar [BOYER]. Escavações no local revelam uma
civilização mais antiga que a dos egípcios, fenícios, assírios e gregos.
Deus mandou que
Abrão saísse do meio de sua parentela. Contudo, ele saiu de Ur levando
sua parentela. Parecem ter viajado margeando o Eufrates, até a cidade
de Harã. Ali morreu o pai de Abrão. Em seguida, Abrão prosseguiu até a
terra de Canaã. Após ter ficado ali algum tempo, foi para o Egito por
causa da fome.
Peregrinação de
Abrão até a sua morte, percorrendo a terra prometida, “marcando” o
território (Gn.13.17):
|
CIDADE,
NAÇÃO OU REGIÃO |
REFERÊNCIA
BÍBLICA |
|
Ur dos
Caldeus (Mesopotâmia) |
Gn. 11.28 |
|
Harã
(Assíria) |
Gn. 11.31 |
|
Siquém
(Canaã) |
Gn. 12.6 |
|
Betel e Ai |
Gn. 12.8 |
|
Egito |
Gn. 12.10 |
|
Neguebe (Canaã) |
Gn. 13.1 |
|
Betel (Canaã) |
Gn. 13.3, 12 |
|
Hebrom (Canaã) |
Gn. 13.18 |
|
Neguebe (Canaã) |
Gn. 20.1 |
|
Entre
Cades e Sur (no Neguebe) |
Gn. 20.1 |
|
Gerar
(Filistia) |
Gn. 20.1 |
|
Berseba
(Filistia) |
Gn. 22.19 |
|
Hebrom
(Canaã) |
Gn. 23.2 |
|
Neguebe
(Canaã) |
Gn. 24.62 |
O CAMINHO DE ABRÃO – SEUS ERROS E ACERTOS
Abrão saiu de sua
terra em obediência a uma ordem de Deus, mas cometeu vários erros no
caminho. Levou seu pai e seu sobrinho. Desceu ao Egito por iniciativa
própria. O Egito não era a terra prometida, embora fosse a potência da
época, cheia de atrativos. Deus não o enviou para lá. Abraão deixou
Betel, que significa “casa de Deus” e “desceu” ao Egito (Gn. 12.10),
que simboliza o domínio do inimigo. Abraão foi ao Egito porque havia
fome em Canaã. Quantas vezes nós deixamos os lugares altos onde o Senhor
nos colocou e descemos para buscar suprimento de alguma necessidade,
quando deveríamos aguardar a direção do Senhor. O momento da fome ou de
qualquer necessidade, real ou imaginária, torna-se um momento de
tentação. É uma situação de risco, pois o inimigo nos oferece algo e
somos tentados a aceitar. Vemos situações desse tipo na história de
Adão e Eva (Gn.3.6), na história de Esaú (Gn.25.29-34) e de Jesus
(Mt.4.1-11). Em cada caso, o desfecho teve suas particularidades.
Na seqüência da
história, veremos outros erros de Abrão: duas vezes omitiu o fato de ser
casado com Sara (que também era sua meia-irmã – Gn.20.12) e depois teve
um filho com a escrava.
Cada erro de Abrão
teve conseqüências danosas. Este é o problema do pecado, de cujos
efeitos o Senhor deseja nos proteger ao nos dar seus mandamentos.
|
ERROS OU
PECADOS DE ABRÃO |
CONSEQÜÊNCIAS DIRETAS, INDIRETAS OU PROVÁVEIS |
REFERÊNCIAS |
|
Saiu de
sua terra levando seu pai. |
O pai
morre no meio da viagem. |
Gn.
11.31-32. |
|
Saiu de
sua terra levando Ló. |
Contenda
entre os pastores. Ló vai morar em Sodoma, envolve-se em um
conflito entre reis, sai de lá fugindo; perde a esposa; é
embriagado pelas filhas e comete incesto com elas, dando origem
a duas nações malditas. |
Gn. 12.4;
13.1-12; 14.12; 19.1-38 |
|
Desceu ao
Egito por causa da fome |
Colocou
sua família em risco. |
Gn.12.10-20 |
|
Omitiu o
fato de ser marido de Sarai. |
Expôs Sara
e Faraó à possibilidade de adultério, o que, pode ter se
consumado.
Causou
grande mal a Sarai e também a Faraó e ao seu povo, pois grandes
pragas vieram sobre eles. |
Gn.12.15-19. |
|
Gera um
filho com Hagar |
Hagar e
Ismael são expulsos. Ismael gera uma descendência contrária a
Israel. |
Gn. 16 |
|
Saiu de
Hebrom e foi para Gerar (terra dos filisteus). |
Colocou
sua família em risco. |
Gn.20.1 |
|
Omitiu o
fato se ser marido de Sara. |
Expôs Sara
e Abimeleque ao adultério. |
Gn.20.2 |
No decorrer do
texto verificamos que, entre um erro e outro de Abrão, Deus vem ao seu
encontro algumas vezes e faz uma correção no rumo do patriarca, fazendo
aliança com ele, dando-lhe ordens, promessas e direção. Assim acontece
conosco. Deus não desiste dos seus filhos por causa dos pecados deles.
Ele nos corrige e nos orienta. Contudo, as conseqüências do pecado nos
perseguem e também por isso devem ser evitados. O pecado de alguns
minutos pode trazer prazeres que passam rapidamente e males que duram a
vida inteira.
GN.13.1-18 – A
SEPARAÇÃO DE ABRÃO E LÓ.
Ló também era um
servo de Deus (II Pd.2.7), mas a aliança de Abraão não servia pra ele.
Sua saída de Ur teve conseqüências trágicas. Assim, o plano de Deus para
uma pessoa não pode ser padrão para as outras. Não podemos viver
“pegando carona” na experiência alheia. Cada um precisa buscar sua
própria experiência com Deus.
Por exemplo, se
alguém foi orientado a deixar o emprego para se dedicar ao ministério,
isto não pode ser imitado por outras pessoas, pois as conseqüências
podem ser terríveis. Jesus mandou que Pedro descesse do barco para
andar sobre as águas. Nenhum dos outros discípulos poderia fazer isso,
pois não receberam a mesma ordem. Até mesmo no uso da bíblia,
precisamos distinguir as ordens universais das ordens individuais e isto
nem sempre é simples. Em Atos 16.31, Paulo diz: “Crê no Senhor Jesus e
serás salvo, tu e tua casa.” Muitos têm usado esse texto como promessa
divina da salvação da família. Esta interpretação é correta em relação à
família do carcereiro de Filipos. Não se trata de uma doutrina bíblica.
Tanto é assim que, ao escrever aos Coríntios, o mesmo apóstolo
questionou: “Como sabes, ó mulher, que salvarás teu marido, e como
sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” (I Cor.7.16). O erro, nesse
caso, é tomar uma experiência pessoal e tentar aplicá-la de modo geral.
Como os rebanhos
de Abrão e Ló haviam crescido muito, seus pastores começaram a
contender. A separação foi a única solução. Naquele momento, Abrão
poderia impor sua autoridade sobre o sobrinho. Contudo, deixou que Ló
escolhesse a terra diante de si. Deu então um exemplo de renúncia, amor
e desprendimento. Afinal, aquele que tem a promessa de Deus não precisa
se impor, nem se apegar a coisas ou terras ou posições, pois sabe que
Deus lhe dará tudo o que lhe prometeu. Quantos servos de Deus têm medo
de perder suas posições? Tremem diante dos “sobrinhos” que prosperam.
No mesmo texto
vemos o exemplo de uma escolha errada com base nas aparências. Ló olhou
para as campinas do Jordão (Gn.13.10), assim como Eva olhou para a
árvore do conhecimento do bem e do mal. Aquela paisagem lhe pareceu
“agradável aos olhos” e “desejável”. Fez então sua escolha e foi morar
em Sodoma que, mais tarde, seria destruída (Is.1.10,29). Com isso, Ló
perdeu seu gado, seus bens e sua família. Nossas escolhas não podem ser
feitas apenas com base no que vemos. Precisamos levar em conta os
princípios divinos; precisamos orar e buscar a orientação do Senhor.
“Disse o Senhor a
Abrão, depois que Ló se apartou dele: Levanta agora os teus
olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o norte, para o sul, para o
oriente e para o ocidente. Toda esta terra que vês, hei de dar a ti e à
tua descendência, para sempre.”
Gn.13.14.
Deus não pode
fazer algumas coisas em nossas vidas antes que rompamos compromissos que
são contrários à sua vontade, ou antes que eliminemos aquilo que não
agrada ao Senhor em nós.
GN.14.1-17 – A
GUERRA DOS REIS.
No livro de
Gênesis são citados vários reis. A monarquia era a forma de governo mais
comum, senão a única. Havia nações politicamente organizadas, mas, em
algumas regiões, cada cidade era independente e tinha o seu rei
(Gn.14.1,8,18), um tipo de “super-prefeito”, com seu próprio exército e
plenos poderes. Apesar disso, notamos que os reis eram bastante
acessíveis.
Abrão e Isaque se
encontraram com alguns reis e, nesses episódios, fica evidente a
grandeza dos patriarcas e a bênção de Deus sobre eles. No capítulo 20,
Abrão se destaca no encontro com Abimeleque, pois se mostra
espiritualmente superior ao interceder diante de Deus pelo rei.
Note-se que Abraão
tinha seu próprio exército capaz de sobrepujar o exército de um rei.
Muito tempo depois, Isaque se tornaria mais poderoso que o rei
Abimeleque (Gn.26.16).
GN.14.18-24 – O
ENCONTRO DE ABRÃO E MELQUISEDEQUE – SÍMBOLO DE CRISTO EM GÊNESIS
Depois da guerra
dos reis, Abrão se encontra com Melquisedeque, cujo nome significa “Rei
de Justiça”. Sua cidade era Salém, ou seja, Jerusalém. Além de rei,
aquele homem era sacerdote de Deus. Vemos então o sacerdócio muito
antes da época de Moisés e da lei. Jesus é apresentado, muito tempo
depois, como sacerdote da ordem de Melquisedeque e, portanto, anterior e
superior ao sacerdócio judaico e a todos os seus valores (Salmo 110.4;
Heb.7).
Melquisedeque foi
uma figura misteriosa. Apareceu repentinamente no relato de Gênesis e
sumiu da mesma forma. Não existem muitas informações sobre ele e isso
ajudou a aumentar o mistério, ao ponto de algumas pessoas imaginarem que
ele seria o próprio Jesus. Não era o caso, pois aquele homem não foi
apenas uma visão de Abrão. Ele era um ser humano e rei em uma cidade
conhecida da época.
Melquisedeque é um
símbolo de Jesus em Gênesis. Ele recebeu o dízimo de Abrão, ofereceu-lhe
pão e vinho e o abençoou. Aquele homem era rei e sacerdote, assim como
Jesus. Seu reino era sobre Jerusalém, onde também será o de Cristo.
Nota-se, já no relato de Gênesis, o valor religioso de Jerusalém que,
por milhares de anos, tem sido motivo de guerras. Havia sacerdotes em
toda parte, mas só o sacerdote de Jerusalém foi considerado de Deus e só
ele abençoou Abrão.
GN.15.1-20 – A
ALIANÇA DE DEUS COM ABRÃO.
Através de Abrão,
Deus deu início à execução do seu plano de salvação dos homens. Para que
nascesse o Redentor, seria necessário um povo especial que lhe pudesse
receber. O plano de Deus era dar a Abrão uma descendência. Isto era
totalmente contrário à situação daquele homem, que era velho e tinha uma
esposa estéril. Tudo contribuía para que ele não tivesse nenhuma
esperança de ter um filho. Aliás, para sermos realistas, isto era
impossível. Contudo, o problema humano não impede o propósito divino.
Deus entra em situações impossíveis e realiza milagres.
Para que Deus
realizasse seu plano em Abrão era necessária uma aliança. Deus opera
através daqueles que têm compromisso com ele.
A fé de Abrão foi
o que fez dele uma pessoa especial. Ele não era perfeito, mas tinha fé e
o desejo sincero de servir a Deus. Abrão creu na promessa divina
(Gn.15.6) e fez um compromisso com Deus, uma aliança.
A parte de Abrão
seria a obediência. A parte de Deus seria dar a ele um filho e uma
terra: Canaã. Os limites da terra prometida estão em Gn.15.18.
Abraão creu na
promessa. Porém, entre esta e o seu cumprimento existe uma distância, um
perído de tempo indefinido (Gn.15.13-16). Uma das maiores dificuldades
de todo servo de Deus é conhecer o tempo de Deus e saber esperar.
Normalmente, não sabemos quando Deus vai fazer algo e então a espera se
torna muito difícil (Gn.17.21; 18.14; 21.1-2).
O RITUAL DAS ANTIGAS ALIANÇAS
Durante todo o
período histórico coberto pelo relato bíblico, as alianças foram muito
importantes nos relacionamentos entre os homens e até mesmo entre as
nações. Até hoje, os pactos e contratos são elementos fundamentais na
nossa sociedade.
Basicamente, uma
aliança é um acordo entre duas ou mais partes que se unem para o
compartilhamento de recursos visando objetivos comuns. No livro de
Gênesis, por exemplo, observamos o relato sobre várias alianças firmadas
entre os homens (Gn.14.13; 21.27; 26.28; 31.44 ). Normalmente, o fraco
se aliava ao mais forte. Desse modo, resguardava-se de ser atacado por
esse mesmo indivíduo e, além disso, conseguia proteção em troca de
algumas obrigações. As partes pactuadas se comprometiam ao auxílio
mútuo, principalmente em caso de guerra.
As alianças eram
formalizadas através de rituais religiosos cujo conteúdo variava
razoavelmente dependendo da época e do lugar. Entre os elementos mais
comuns nesse tipo de cerimônia podemos citar: sacrifício de animais,
presença de testemunhas, festa, refeição, troca de presentes,
compromisso verbal em forma de juramento, estabelecimento de um
memorial, um símbolo que permitisse a lembrança da aliança feita.
Em um tipo
específico de ritual, um animal era sacrificado e seu corpo era partido.
Seus pedaços eram colocados no chão e por entre eles passavam aqueles
que estavam fazendo a aliança. Por esse ato declaravam que aquele que
quebrasse a aliança deveria ser despedaçado como aquele animal
(Jr.34.18; Gn.15.9-17).
A compreensão das
alianças antigas e seus rituais nos ajuda a entender o compromisso entre
Deus e os homens. A bíblia nos mostra que o Senhor fez aliança com Noé,
que naquele ato era representante de toda a humanidade (Gn.6.18;
9.9-12). Depois, Deus fez aliança com Abraão, representante de Israel
(Gn.15.18; 17.2). No Novo Testamento, Jesus é o representante da igreja
no estabelecimento da Nova Aliança com o Pai (Lc.22.20).
Aliança é
compromisso. Jesus foi sacrificado. Seu corpo foi partido por nós
durante uma festa, a páscoa (Mt.26.26). Naquele dia, ele estabeleceu a
ceia como um memorial, para que jamais nos esquecêssemos do nosso
vinculo com o Senhor.
Muitos querem ser
abençoados, mas poucos querem compromisso. A diferença entre ambos será
sentida por toda a eternidade. Ismael foi abençoado, mas Isaque teve
aliança com Deus e através de sua descendência veio o Salvador.
Cristianismo é um
modo de vida em aliança com Deus. Isto não significa restrição, mas sim
segurança. Se estamos comprometidos com aquele que é mais forte, aquele
que é o Todo-Poderoso, então podemos descansar no seu poder e na sua
fidelidade. Não estamos sós ou desamparados. Não podemos ser tocados
pelo inimigo, pois aquele que está em nós e maior do que aquele que está
no mundo. Deus está conosco para lutar as nossas guerras.
Deus jamais
quebrará uma aliança estabelecida por ele. A aliança de Deus com Noé
continua firme e é por isso que o mundo nunca mais voltará a ser
destruído pelas águas. A aliançaa de Deus com Abraão continua firme e é
por isso que a nação de Israel continua viva e florescente, apesar de
toda a fúria de seus adversários. A aliança de Deus com a igreja
continua firme e é por isso que as portas do inferno não prevalecem
contra ela.
Deus jamais
quebrará sua aliança, mas... e nós? Se você não tem compromisso com
Deus, saiba que está vivendo perigosamente, pois o Inimigo tem direitos
sobre a sua vida. Se você tem aliança com Deus, não quebre o
compromisso. Aquele que rompe a aliança pode ser despedaçado como o
animal do sacrifício. Por esta causa, o abandono da fé, a apostasia, é
algo muito perigoso.
GN.16.1-16 – O
NASCIMENTO DE ISMAEL.
Deus prometeu que
Abrão teria um filho. O tempo passou. Abrão estava com 85 anos e o filho
não vinha. Então, Sara teve uma idéia “brilhante”: Abrão poderia ter um
filho com a escrava. A idéia foi aceita e assim foi feito. Abrão pensou
que podia ajudar Deus a cumprir sua promessa. Foi um desastre histórico.
Assim acontece quando não temos paciência e queremos interferir nos
propósitos divinos.
Alguns erros não
têm conserto. Abrão não poderia matar Ismael. O segundo erro seria
maior do que o primeiro. Ismael viveu e gerou uma descendência que, até
hoje, cria sérios problemas para Israel. O que fazemos para antecipar o
tempo de Deus torna-se algo inútil e prejudicial.
|
IDADE DE
ABRÃO |
FATO |
REFERÊNCIA |
|
75 anos |
Abrão saiu
de Harã |
Gn.12.4 |
|
85 anos |
Abrão
resolve gerar Ismael |
Gn.16.3 |
|
86 anos |
Nasce
Ismael |
Gn.16.16 |
|
99 anos |
Deus
repete a promessa de uma descendência. |
Gn.17.1,17 |
|
100 anos |
Nasce
Isaque |
Gn.21.5 |
GN.17.1-27– A
CIRCUNCISÃO - CONFIRMAÇÃO DA ALIANÇA. DEUS MUDA O NOME DE ABRÃO E
SARAI.
Na antiguidade, os
nomes eram escolhidos de acordo com seus significados. Algumas vezes,
houve troca de nomes, em função de um significado melhor ou mais
adequado. Deus trocou o nome de Abrão (Pai exaltado) para Abraão (Pai
de uma multidão). O nome de Sarai (Contenciosa) foi mudado para Sara
(princesa). (Obs.: alguns dicionários bíblicos atribuem também a
“Sarai” o significado de “princesa”).
Deus mudou o nome
de alguns de seus servos em função do propósito que tinha em suas vidas
ou como referência à mudança de caráter. Outros exemplos: Jacó/Israel;
Simão/Pedro.
Da mesma forma,
Deus deseja mudar nossos nomes, ou seja, os adjetivos que normalmente
nos caracterizam. Que nenhum de nós seja chamado de “enganador” ou
“desonesto”, mas que sejamos fiéis e verdadeiros.
O nome “Abrão” já
era bom, mas o que Deus tinha para aquele homem era algo muito superior.
De qualquer forma, ambos os nomes carregavam o sentido da “paternidade”,
que era justamente o que faltava na vida daquele servo de Deus. Talvez
seu nome tenha sido motivo de zombaria algumas vezes, pois aquele “pai
exaltado” não tinha um filho sequer. A situação parece ter se agravado
quando o seu nome foi mudado para “pai de uma multidão”. Assim, muitas
vezes, a nossa realidade não corresponde aos propósitos de Deus, mas não
podemos desanimar, pois tudo se cumprirá no tempo determinado.
Abraão queria um
filho, mas o plano de Deus é que ele fosse pai de muitas nações. Vemos
quão superior é o projeto de Deus para nós.
Vejamos algumas
nações que surgiram de Abraão: Israel (Jacó), Edom (Esaú), Árabes
(Ismael), Midianitas (Midiã), etc.
CIRCUNCISÃO – ATO DE CONFIRMAÇÃO DA ALIANÇA – Gn. 17.4-14
No capítulo 17,
temos a confirmação da aliança de Deus com Abraão. São repetidas algumas
promessas do capítulo 15 e acrescentados alguns detalhes. Naquele
episódio foi instituída a circuncisão. No capítulo 15, Abraão havia
sacrificado animais. Agora, precisaria fazer um sacrifício pessoal. A
aliança com Deus não se restringe a tarefas fáceis, nem tampouco a
compromissos verbais, embora estes também façam parte. A obediência
envolve ações que trazem dor.
Circuncisão
significa “cortar em volta”. Trata-se do corte no prepúcio, ou seja, a
pele que envolve o órgão sexual masculino. Abraão ficaria marcado para
não se esquecer da aliança.
Abraão obedeceu, e
todos os homens de sua casa foram circuncidados naquele mesmo dia
(17.23-27). Ele não deixou para o dia seguinte. Quando recebemos ordens
de Deus, devemos cumpri-las com urgência.
A ordem de Deus
significou um tipo de prova para Abraão. Ao obedecê-la, Abraão
demonstrou de forma prática a sua fé. Não podemos crer apenas na
teoria. Precisamos colocar em prática a nossa fé (Tg.2.26).
Não precisamos
provar nada para Deus, pois ele é onisciente. Entretanto, nós precisamos
de tais evidências, para nossa própria segurança. Nossa prática também
serve como testemunho da nossa fé perante as outras pessoas. Veja outros
textos que mostram a obediência de Abraão: Gn.12.1-4; 21.10,14; 22.2-3;
26.5.
A circuncisão
tornou-se um símbolo prático da aliança com Deus. No nosso contexto, o
batismo nas águas e a ceia têm sentido semelhante.
GN.18.1-16 – TRÊS
SERES CELESTIAIS VISITAM ABRAÃO.
Abraão teve
experiências progressivas com Deus, de modo que foi conhecendo mais o
caráter do Senhor e o plano divino para a sua vida. Isto significa
“andar com Deus”, embora Abraão tenha, em alguns momentos, tomado seu
próprio rumo e sofrido as conseqüências.
|
Experiência |
Referência |
|
Ordem para
sair de sua terra |
Gn.12.1-4 |
|
Promessa
de uma nação |
Gn.12.2-3 |
|
Promessa
de uma terra |
Gn.12.7 |
|
Apresentação da extensão da terra |
Gn.13.14-18 |
|
Aliança
com Deus marcada com sangue e fogo |
Gn.15 |
|
Confirmação da aliança – instituição da circuncisão. Deus diz
que o filho viria de Sara. |
Gn.17 |
|
Abraão
recebe a visita de três seres celestiais, sendo que um deles era
o próprio Deus em forma humana. |
Gn.18 |
|
Deus
revela a Abraão o propósito de destruir Sodoma e Gomorra. |
Gn.18 |
|
Abraão
intercede por Ló e Deus o responde. |
Gn.18 |
|
Abraão
recebe o filho da promessa: Isaque |
Gn.21 |
|
Deus pede
que Abraão sacrifique seu filho e, em seguida lhe dá livramento. |
Gn.22 |
Em toda
experiência com Deus existe a ação divina e a ação humana, seja como
iniciativa ou ato de obediência. As promessas estão associadas às
ordens. Muitas das bênçãos estão condicionadas à obediência. As
revelações são dadas àqueles que buscam ao Senhor.
No capítulo 18,
Abraão recebe uma visita celestial. Três “homens” chegam à sua tenda e
são recebidos com entusiasmo por Abraão, que parece ter reconhecido o
Senhor imediatamente. Ali estavam Deus
com dois dos seus anjos (18.2,3,13,22; 19.1).
Em sua progressiva
caminhada com Deus, Abraão chegou ao nível da intimidade com o Senhor,
tornando-se o único homem a quem a bíblia chama de “amigo de Deus”.
(Gn.18.17; Tg.2.23). Nós não alcançaremos tal posição se mantivermos
uma vida espiritual de superficialidade.
GN.18.17-33 – O
ANÚNCIO DA DESTRUIÇÃO DE SODOMA E GOMORRA.
Devido à sua
intimidade com Deus, Abraão recebeu a revelação da destruição de Sodoma
e Gomorra. Temos aí a condição básica do ministério profético:
intimidade com Deus (Am.3.7; Salmo 25.14). Pouco tempo depois, Deus
disse que Abraão era profeta (Gn.20.7), aliás, o primeiro que recebe
tal título na biblia, embora saibamos que Enoque e Noé também
profetizaram. No Novo Testamento, o maior profeta, se podemos dizer tal
coisa, foi João que, tendo sido o amigo mais íntimo de Jesus, recebeu as
maiores revelações, incluindo o impressionante Apocalipse.
Abraão foi também
o primeiro intercessor, pois orou ao Senhor a favor do seu sobrinho Ló.
Observe que no capítulo 14, o patriarca agiu em favor de Ló. No capítulo
18 ele orou. No primeiro caso, tratava-se de uma situação que estava ao
alcance de Abraão resolver. No segundo caso, não, pois o mal anunciado
viria do próprio Deus. Quantas vezes oramos quando deveríamos agir ou
agimos quando deveríamos orar! Podemos fazer algo pelo irmão, mas
pedimos a Deus que o faça. Em Gn.20.17, Abraão intercede também pelo
rei Abimeleque.
GN.19.1-38 – A
DESTRUIÇÃO DE SODOMA E GOMORRA.
Devido à sua má
escolha, o justo Ló foi morar no lugar errado. Muitas vezes, os servos
de Deus passam por situações de sofrimento e podem até levantar
questionamentos sobre a vontade de Deus. Contudo, se esquecem de que
tais situações são frutos de suas próprias escolhas, que podem ter sido
feitas sem oração e sem consulta ao Senhor.
Apesar de tudo
isso, Deus mandou seus anjos para tirarem Ló daquele lugar antes que a
destruição ocorresse. Nisto vemos a misericórdia divina a favor daquele
homem e de sua família (19.16,19).
As cidades de
Sodoma e Gomorra se destacaram na história pela prática do
homossexualismo (19.4-5). Daí veio o termo “sodomita” (Dt.23.18; I
Rs.14.24; I Rs.15.12; I Rs.22.46; II Rs.23.7; I Cor.6.9; I Tm.1.10) que
significa “homossexual” ou aquele que pratica relação sexual anal.
Sodoma se tornou
motivo de aflição para Ló (II Pd.2.7). Ele se tornou um pregador no meio
daqueles ímpios, mas foi motivo de zombaria (Gn.19.14).
A destruição de
Sodoma e Gomorra foi um clássico exemplo do juízo divino, como fora o
dilúvio. O pecado daqueles homens ultrapassou os limites da tolerância
divina. Aquele episódio foi usado no Novo Testamento como modelo da ira
divina que será derramada nos últimos dias (Lc.17.28-32; II Pd.2.6;
Jd.7; Ap.11.8).
Ao sair de Sodoma,
Ló escapou da destruição. Contudo, sua mulher olhou para trás e se
transformou numa estátua de sal, tornando-se exemplo do que acontece com
aqueles que ficam presos a uma vida passada de pecado. As filhas de Ló o
levaram à embriaguez e tiveram relações sexuais com ele. Daí nasceram
dois filhos, Ben-Ami (hb: filho do meu povo) e Moabe (hb: família de um
pai), que deram origem a duas nações malditas: Amom e Moabe, grandes
inimigos de Israel (I Sm.14.47). Observemos as conseqüências de Ló ter
criado suas filhas em um lugar perverso, onde não havia o conhecimento
do Senhor.
A relação sexual
entre pais e filhos nunca apareceu na bíblia como algo permitido ou
tolerável e, a partir da lei mosaica, foi claramente proibido
(Lv.18.7-10).
GN.20.1-18 –
ABRAÃO HABITA EM GERAR E NEGA QUE SARA SEJA SUA ESPOSA.
Abraão sai de
Hebrom (Gn.13.18) e vai para Gerar, na terra dos filisteus, ao sul de
Gaza (Gn.20.1; 21.34). Fez isso sem a direção de Deus e acabou se
submetendo a uma situação difícil. Por medo de Abimeleque, omitiu o fato
de ser marido de Sara. Por isso, Abimeleque a tomou para ser sua
mulher. Porém, não chegou a possuí-la pois Deus o alertou em sonhos.
De fato, Sara era
irmã de Abrão por parte de pai. Contudo, omitir que era sua esposa foi
um erro pois criou uma situação favorável ao adultério.
Vemos, então, o
patriarca Abraão, o pai da fé, em situação de fraqueza, medo e omissão.
A bíblia não disfarça as fraquezas e os pecados de seus heróis. Assim
vemos na história de Abraão, Isaque, Jacó, os doze patriarcas, Moisés,
Davi, e outros. Demonstrando sua humanidade comum, o texto bíblico deixa
claro que, assim como Deus agiu na vida daqueles homens normais, pode
agir também em nós.
Esta sinceridade
dos autores bíblicos é fator favorável à credibilidade bíblica.
GN.21.1-8 – O
NASCIMENTO DE ISAQUE.
Aos 100 anos de
idade (Gn.21.5), Abraão teve seu filho Isaque, conforme Deus havia
prometido 25 anos antes. Isaque nasceu quando Abraão e Sara já não
podiam mais gerá-lo por si mesmos. Além de idosa (90 anos), Sara era
estéril. Não havia esperança humana nesse caso. Quando nasceu Ismael,
Abraão tinha 86 anos (Gn.16.16). Ainda era auto-suficiente. Aos 99
anos, porém, ele já não estava tão certo de que poderia gerar um filho
(Gn.17.17,24). Quando parece tarde demais, Deus ainda opera. Ele
espera que os recursos humanos terminem para que a glória seja só dele.
(Quando Jesus ressuscitou Lázaro, ele já estava sepultado há 4 dias.
Jesus podia tê-lo curado alguns dias antes, mas ele esperou que não
houvesse nada que pudesse tirar o brilho ou deixar em dúvida a obra
miraculosa de Deus).
Quando nasceu
Isaque, Ismael estava com 14 anos. O filho da escrava era o primogênito
de Abraão. Contudo, tal direito não lhe foi atribuído. Rapidamente
surgiu a rivalidade entre os irmãos (Gn.21.9-10). Tal conflito continua
até hoje entre árabes e israelenses, cujo objeto de discórdia é a posse
da terra, herança do pai Abraão.
Obs.: Em época
anterior a Abraão, ter um filho aos 100 anos era algo perfeitamente
possível e normal (Gn.11.10-11).
GN.21.9-21 – A
EXPULSÃO DE HAGAR E ISMAEL.
O filho sofre as
conseqüências do pecado de seus pais, mesmo que não haja exatamente uma
maldição envolvida nisso. É apenas resultado lógico de uma ação errada.
Mas Deus não deixou que Ismael morresse no deserto. Vemos nisso a
misericórdia divina em ação.
GN.22.1-24 – A
PROVA DE ABRAÃO – SACRIFICAR ISAQUE.
Para conhecer um
pouco mais do caráter de Deus, Abraão precisava sacrificar um pouco
mais, ou muito mais. Depois da experiência de cortar na própria carne,
Abraão precisou encarar a decisão de sacrificar o seu próprio filho.
Certamente, nenhuma ordem de Deus tinha sido tão difícil até então.
Aquela foi uma
oportunidade de Abraão conhecer um pouco mais a si mesmo. De outro
modo, ele jamais saberia do que seria capaz em sua caminhada com Deus.
O Senhor nos apresenta desafios para que a força e a sinceridade da
nossa fé se manifeste de modo claro. Jamais seremos fortes se não
passarmos por situações difíceis. É o fogo que dá ao ouro seu brilho e
aumenta o seu valor.
A experiência de
Abraão e Isaque no monte Moriá pode ser comparada ao sacrifício de
Jesus. Abraão pode ser visto como “figura” de Deus, o Pai. Isaque
representaria Jesus. Assim como Isaque carregou a lenha enquanto subia
(22.6), Jesus carregou a cruz ao subir o monte Calvário.
Abraão disse aos
servos: “havendo adorado, voltaremos para vós.” Nesta frase, está clara
a fé do patriarca, pois estava convicto de que, mesmo que Isaque
morresse, Deus haveria de ressuscitá-lo (Heb.11.18-19). Está aí
simbolizada a ressurreição de Cristo.
Naquele momento
amargo, Abraão, que já cria na provisão divina, pôde experimentá-la de
fato. As tribulações são necessárias para que possamos experimentar
aquilo em que acreditamos. Abraão conheceu a Deus um pouco mais: o Deus
da provisão.
Ao dispensar o
sacrifício de Isaque, Deus mostrou a Abraão e a toda humanidade que ele
não queria sacrifícios humanos. Até então, isto não estava claro para
Abraão. O único sacrifício humano que Deus iria providenciar seria o
sacrifício do seu próprio filho, Jesus.
Naquela região,
Moriá, onde Abraão sacrificaria Isaque, foi construído, muito tempo
depois, o templo de Salomão.
GN.23.1-20 – A
MORTE DE SARA.
Para sepultar a
esposa, Abraão comprou seu primeiro pedaço de terra em Canaã (Gn.23.16),
por 400 siclos de prata. O siclo era unidade monetária (e também peso)
dos hebreus, babilônios, fenícios, etc. Um siclo de prata, no tempo do
Velho Testamento, correspondia a 11,4 gramas [Thompson]. 400 siclos
eram então 4,560 Kg. Abraão não usou moedas, tais como as que temos
hoje, mas pesou a prata para o pagamento. O proprietário estava pronto a
doá-lo. Porém, Abraão não aceitou a doação, assim como não aceitou
doação do rei de Sodoma (Gn.14.21-23), embora tenha aceitado doações de
Faraó (Gn.12.16) e de Abimeleque (Gn.20.14).
GN.24.1-67 – O
CASAMENTO DE ISAQUE E REBECA.
Abraão não queria
que Isaque se casasse com uma mulher cananéia. Então, mandou seu servo
Eliezer buscar uma esposa para o filho entre as mulheres de sua família,
em Harã. Rebeca era neta de Naor, irmão de Abraão (Gn.22.20-24).
Eis algumas das
características de Rebeca:
Pertencia a uma
boa família, demonstrava bondade (24.17-18) e disposição para o trabalho
(24.11-14). Era virgem e formosa. Porém, não era perfeita. Muitos anos
depois, ajudou Jacó a enganar Isaque. Não procure uma mulher perfeita.
Afinal, somente um homem perfeito deveria desejar uma mulher perfeita.
Eliezer não estava
em busca de qualquer mulher. Por isso, colocou-se a observar as
características da moça. Contudo, acima de tudo, ele contava com a
providência divina afim de não se enganar.
Rebeca se mostrou
muito disposta ao trabalho. Ela estava pronta a dar água para 10
camelos.
Note-se a completa
submissão de Isaque à autoridade paterna. Em algumas culturas da
atualidade os casamentos ainda são definidos pelos pais. Em alguns
casos, quando os filhos são ainda crianças.
O servo de Deus,
ao escolher uma esposa, deve procurá-la entre as filhas de Deus, alguém
que pertença à nossa família. O jugo desigual é algo perigoso que pode
trazer inúmeras conseqüências prejudiciais.
A história de
Isaque e Rebeca nos traz uma ótima ilustração para o ensino sobre Jesus
e a Igreja. Abraão pode representar Deus, o Pai. Eliezer seria
comparado ao Espírito Santo. Enquanto o Filho está no céu, o Espírito
vem à terra para buscar a igreja. Contudo, ele precisa de um tempo para
prepará-la para o encontro com o noivo. Os presentes e adornos que
Eliezer deu a Rebeca podem ser comparados aos dons espirituais
(Gn.24.22).
GN.25.1-11 – A
MORTE DE ABRAÃO.
Após a morte de
Sara, Abraão casou-se com Quetura, com quem teve vários filhos. Teve
filhos também com outras mulheres, suas concubinas.
Abraão morreu aos
175 anos. Toda a sua herança ficou para Isaque (25.5), embora Ismael
fosse o primogênito. Talvez não houvesse uma lei para controlar esse
tipo de situação. Os outros filhos de Abraão também ficaram sem
herança. Receberam apenas presentes (25.2,6).
GN.25.12-18 – A
GENEALOGIA DE ISMAEL.
Ismael gerou 12
príncipes que se tornaram 12 tribos, como depois ocorreria com Jacó. De
Ismael veio o povo Árabe. Referências à Arábia e aos árabes: II
Cr.9.14; II Cr.17.11; II Cr.21.16; II Cr.22.1; II Cr.26.7; Is.13.20;
Jr.3.2; I Rs.10.15; Is.21.13; Jr.25.24;Ez.27.21; Ez.30.5; At.2.11.
GN.25.19-25 – O
NASCIMENTO DE ESAÚ E JACÓ.
Isaque e Rebeca
tiveram dois filhos: Jacó e Esaú. Embora fossem gêmeos, tinham
diferenças físicas e de personalidade. Jacó tinha a pele lisa. Esaú era
peludo. Notamos aí uma diferença genética que talvez possa ser usada
como exemplo de variação como as que deram origem às raças. Não se
trata de mutação nem de evolução, mas variação já programada pelo
Criador no código genético.
Jacó e Esaú dariam
origem a duas nações: Israel e Edom, que seriam povos inimigos. A
descendência de Jacó permanece até hoje. Os descendentes de Esaú foram
exterminados ou se misturaram com outros povos.
GN.25.26-34 – ESAÚ
VENDE SUA PRIMOGENITURA.
Jacó era homem
caseiro, o preferido por sua mãe. Esaú, porém, era caçador. Um dia, ao
voltar do campo, estava muito cansado e faminto. Jacó havia preparado um
guisado de lentilhas. Esaú, querendo saborear aquele manjar, se dispôs
a vender seu direito de primogenitura. Isto nos faz refletir sobre os
momentos de fome, ou algum tipo de necessidade física ou psicológica,
real ou imaginária. Momentos assim tornam-se oportunidade de tentação e
pecado. O inimigo vem nos oferecer algo para suprir nossa necessidade.
Ele tem alguma “solução” para nos vender, embora pareça gratuita. O
preço é muito alto, embora não tenhamos de pagá-lo de imediato.
Contudo, quando a cobrança vier, será tarde demais para desfazer o
negócio.
Esaú vendeu sua
bênção por um prazer passageiro, pelo suprimento de uma necessidade.
O momento de Eva
diante do fruto proibido foi aproveitado pela serpente para a tentação
(Gn.3). O momento de Jesus no deserto, com fome, foi aproveitado por
Satanás para fazer-lhe sua oferta (Mt.4). A fome colocou também Abraão
(Gn.12.10) e Isaque em situações perigosas (Gn.26.1).
GN.26.1-11 –
ISAQUE HABITA EM GERAR E NEGA QUE REBECA SEJA SUA ESPOSA.
Por causa da fome,
Isaque saiu do lugar determinado por Deus e desceu a Gerar, na
terra dos filisteus. Se Deus não impedisse, ele teria chegado ao Egito,
como tinha feito seu pai (12.10).
Observe o peso do
exemplo dos pais. Isaque chegou à terra de Abimeleque e negou que
Rebeca fosse sua esposa, assim como Abraão fizera em relação a Sara.
Parece que este Abimeleque era o mesmo do tempo de Abraão (compare 21.32
e 26.26). Contudo, existe a possibilidade de “Abimeleque” ser um títulos
dos reis filisteus (veja Salmo 34 e I Sm.21.12-13). Assim, o Abimeleque
do tempo de Isaque pode ter sido filho do Abimeleque conhecido por
Abraão.
Isaque fixou
residência temporariamente por ordem de Deus (26.1-3,6,17,23). Isto
favoreceu a prática da agricultura (26.12). Para vencer a fome, foi
preciso definição de local, trabalho e paciência para aguardar a
produção. A indefinição e a inconstância são favoráveis ao estado de
necessidade.
GN.26.12-25 – AS
CONTENDAS DE ISAQUE PELOS POÇOS.
Isaque prosperou e
os filisteus o invejaram. Como o domínio se dava pela força, a
prosperidade de uns representava ameaça para os outros. (Foi assim até
na época do Êxodo, quando faraó temeu pelo crescimento do povo hebreu).
Isaque semeou na mesma terra que os filisteus. Contudo, sua colheita foi
abundante porque o Senhor o abençoou (26.12-16).
A inveja, por si
mesma, nada pode fazer contra alguém. Não se trata de uma energia
invisível que possa prejudicar uma pessoa, senão ao próprio invejoso. O
mal acontece quando a inveja é transformada em ação contra o próximo.
Isaque lutou pela
herança de Abraão. Ele foi em busca dos poços que seu pai havia cavado.
Isaque procurou resgatar os valores do pai. O que foi bênção para o pai
haveria de ser bênção para ele também.
Os filisteus,
motivados pela inveja, lançaram entulho nos poços de Isaque. Assim, o
inimigo procura encher nossa vida de lixo, tentando bloquear o fluir de
Deus em nós (fruto, dons, palavra, poder, etc); (João 7.37-38).
Isaque pretendia
apenas usufruir dos poços cavados por seu pai. Contudo, as coisas não
foram assim tão simples. Ele precisou fazer o seu próprio trabalho.
Precisou cavar quatro vezes e brigar pelos poços (26.14-22, 32-33).
Observamos a insistência de Isaque, sua perseverança no propósito de
conseguir águas vivas, águas correntes dos lençóis subterrâneos. Se
quisermos grandes experiências com Deus, não podemos ser superficiais.
Precisamos cavar, buscar, com esforço e perseverança. O texto nos
mostra também a persistência do inimigo no seu propósito de prejudicar
os filhos de Deus. Contudo, Isaque foi vencedor. “Aquele que perseverar
até o fim será salvo” (Apc.2.10). “Resisti ao diabo e ele fugirá de
vós” (Tg.4.7).
Deus poderia ter
providenciado água para Isaque de outras formas. Poderia enviá-lo para
junto de um rio. Poderia fazer chover abundantemente. Porém, a
facilidade não gera experiência nem contribui para o desenvolvimento de
habilidades.
Os nomes dos poços
e seus significados:
Eseque (Gn. 26.20)
– Hb. luta
Sitna (Gn.26.21) –
Hb. luta.
Reobote (Gn.26.22)
– Hb. espaços largos.
Berseba (Gn.26.33)
– Hb. poço do juramento.
A luta é
constante, mas não é eterna. Antes de alcançarmos “espaços largos”
precisaremos passar por caminhos apertados e portas estreitas.
GN.26.26-25 – A
ALIANÇA ENTRE ISAQUE E ABIMELEQUE.
A aliança era uma
forma de união para o compartilhamento de força e recursos. Para alguém
que estivesse se sentindo fraco, era vantajosa uma aliança com o forte
para obter proteção e garantia de não ser atacado ou destruído por
aquela mesma pessoa. Assim, Abimeleque, ao se sentir inferior a Isaque,
tratou de conseguir uma aliança com ele.
Observe que, em
situações assim, o fraco é aquele que procura a aliança. Afinal, o forte
está em situação de vantagem e não necessita do acordo. Desse modo,
Abimeleque procurou Isaque (Gn.26.26-30). Observe o destaque que o
patriarca obtém naquela situação.
Isaque chegou
naquela terra como um estrangeiro em busca de comida. Algum tempo
depois ele se tornou mais poderoso do que o rei daquela cidade.
Algumas vezes, a
realização de uma aliança envolve um sacrifício e uma refeição,
acompanhada de juramento (26.31) na presença de testemunhas (26.26).
Isto nos faz lembrar a ceia de Jesus com seus discípulos quando, tomando
o cálice, disse: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue
derramado por vós.” (Lc.22.20) (Heb.9.15,18-28).
O rei Abimeleque
demonstrou astúcia ao fazer aliança com Isaque. Ele era rei dos
filisteus e estes foram inimigos históricos de Israel. Portanto, temos
aí uma ilustração da astúcia do inimigo. Depois de tentar nos vencer
pela força (Gn.26.14,15,20,21), ele procura fazer aliança conosco, de
modo que depois, não tenhamos mais autoridade para combatê-lo e ele
possa nos destruir na intimidade. Cuidado com os compromissos com o
pecado, os jugos desiguais, as sociedades com os infiéis. Outro caso
semelhante ocorreu quando Josué fez aliança com os gibeonitas (Js.9).
GN.27.1-46 – JACÓ
É ABENÇOADO NO LUGAR DE ESAÚ.
As palavras
“bênção” e “maldição” estão em destaque no livro de Gênesis. Uma das
formas de alguém ser abençoado era por meio do pai ou do avô. Eles
tinham o poder de abençoar ou amaldiçoar. Este era um forte motivo para
que fossem respeitados, honrados, obedecidos e agradados. Eram um tipo
de representantes de Deus perante os filhos. Os primogênitos tinham uma
bênção especial. Seria o caso de Esaú que, embora tivesse um irmão
gêmeo, foi marcado como primogênito no momento do nascimento.
Sabemos, porém,
que Esaú, quando sentiu fome e cansaço, considerou de pouco valor seu
direito de primogenitura. Afinal, aquele direito lhe garantiria bênçãos
e benefícios futuros, em época desconhecida, e ele precisava de algo
imediato para satisfazer sua necessidade. Quantas vezes abrimos mão dos
nossos direitos como filhos de Deus em troca de vantagens imediatas e
passageiras. O ser humano deseja benefícios e resultados rápidos. A
paciência é virtude de poucos. Deus nos dá bênçãos imediatas, mas
sabemos que o principal está guardado para nós em um futuro indefinido,
embora certo.
Quando Esaú vendeu
seu direito de primogenitura, não sentiu os efeitos devastadores de sua
decisão. Sua vida continuou inalterada, até que chegou o dia das
conseqüências. Desse modo, as decisões erradas podem não apresentar
malefícios imediatos, mas estes certamente virão.
Esaú perdeu a
bênção que seu pai lhe daria. Um breve momento de insensatez e
precipitação produziu uma grande e desastrosa conseqüência. Chegou a
hora de pagar a conta, a dívida para com Jacó.
Esta hora chegará
para todos. O que foi plantado deverá ser colhido, seja nesta vida ou na
eternidade.
É interessante
observarmos que Deus respeitou o mau negócio feito por Esaú. Ele não
interfere nas nossas escolhas porque já nos deu inteligência e
livre-arbítrio. Deus apenas nos ensina, nos aconselha e nos adverte.
Porém, não impede nossos erros. Deus poderia ter orientado Isaque para
abençoar Esaú. Contudo, ele respeitou a decisão que levou à venda da
primogenitura. A bênção foi dada a Jacó. Se Deus interferisse, Esaú não
colheria o fruto de sua decisão. Isto seria um estímulo ao erro.
Naquele episódio,
Rebeca usou a autoridade materna de modo errado, ajudando o filho a
enganar o pai (Gn.27.8,13).
Isaque estava
velho e já não podia ver. Esta deficiência visual foi decisiva para que
Jacó o enganasse. O capítulo 27 faz referência aos 5 sentidos do corpo.
Por falta de visão (27.1), a audição (27.22), o tato (27.12,21,22) e o
olfato (27.27) foram usados na tentativa de se saber a verdade. Contudo,
cada sentido foi, por sua vez, enganado. O paladar (27.4,19,25) foi
agradado pelo alimento saboroso e isso ajudou bastante no processo do
engano. Quando a visão não funciona, tentamos usar como “olhos” outros
órgãos e sentidos. Contudo, o texto mostra a fragilidade, insuficiência
e “enganabilidade” dos sentidos físicos. Isaque não consultou ao Senhor,
não usou suas capacidades espirituais, mas confiou no seu próprio corpo
e foi enganado.
Esaú pretendia
agradar o pai com um alimento saboroso para ser abençoado. Porém, Jacó
fez isso primeiro com a ajuda de sua mãe. Vemos como o ser humano é
manipulado pela comida. Lembremo-nos do caso de Eva diante do fruto
proibido, de Esaú diante do prato de Lentilhas. Muito tempo depois,
Satanás tentou a Cristo da mesma forma, sugerindo que ele transformasse
pedras em pães.
Jacó mentiu três
vezes (27.19,20,24) e colocou até o nome de Deus em sua mentira (27.20).
Isto sempre aconteceu, desde Gênesis 3, quando a serpente distorceu a
palavra de Deus. Sempre existem pessoas dizendo que Deus disse isso e
aquilo. Algumas estão bem intencionadas, embora enganadas. Outras fazem
isso de má fé, com o objetivo de enganar as pessoas em nome de Deus.
Muitos até já se acostumaram a dizer que o Senhor lhes falou algo ou fez
algo, contudo suas vidas não correspondem a essa suposta intimidade com
Deus.
Depois que Jacó
saiu da presença de Isaque, Esaú ainda quis ser abençoado. Contudo, a
bênção de Isaque sobre Jacó foi absoluta, abrangente e irrevogável
(27.37). Ele disse que Jacó seria senhor sobre todos os seus irmãos.
Sendo assim, que bênção poderia ser dada a Esaú, se ele já tinha sido
declarado servo de Jacó? Isaque não tentou consertar ou modificar o que
foi dito. Sua palavra era irrevogável, ainda mais se tratando de um
pedido de bênção diante de Deus (27.28). Veja como as nossas palavras,
nossa oração e nossos compromissos devem ser levados a sério. De fato,
Isaque ainda abençoou Esaú (Heb.11.20), dando-lhe chance de
sobrevivência, moradia e libertação, mas tudo isso ocorreria com grande
esforço e dificuldade (Gn.27.39-40).
Esaú e Jacó eram
gêmeos. Sendo assim, qualquer um podia ser considerado primogênito. O
que fez a diferença, no final, foram suas ações e seus propósitos.
Embora Jacó tenha usado de engano, ele estava em busca da bênção. Esaú,
por sua vez, desprezou e vendeu a bênção. Isto foi abominável aos olhos
de Deus (Rm.9.12-13; Heb.12.16).
Depois que Jacó
foi abençoado, Rebeca enganou Isaque mais uma vez, fazendo-o enviar Jacó
a Padã-Arã como se fosse para procurar uma esposa, quando, de fato, ele
estava fugindo de Esaú (Gn.27.46; 28.2).
Jacó tinha o
exemplo do engano em sua própria mãe.
GN.28.1-22 – A
VIAGEM DE JACÓ PARA PADÃ-ARÃ E O SONHO DA ESCADA PARA O CÉU.
No capítulo 28
começam as experiências espirituais de Jacó em meio a uma situação
adversa. Ele estava sozinho, sem condições financeiras, sem conforto,
enquanto viajava para Padã-Arã. Quando dormiu, o único travesseiro que
tinha era uma pedra, mas foi naquela noite que ele teve uma visão
celestial. Viu uma escada que ia da terra ao céu, por onde os anjos
subiam e desciam. Jacó exclamou: “O Senhor está neste lugar e eu não
sabia”. Aquele sonho mostrava a realidade do mundo espiritual, sobre o
qual Jacó já tinha informações, mas nenhuma experiência. A escada
mostra a ligação entre a terra e o céu, demonstrando a ligação entre o
mundo natural e o mundo espiritual e, sobretudo, a soberania divina na
condução da história. Jacó precisava saber que não estava sozinho,
embora não tivesse companheiro de viagem. Precisava saber também que
Deus tinha seus propósitos e que ele não podia conduzir sua vida por
meio do engano.
Naquela noite, o
Senhor repetiu para Jacó as promessas feitas a Abrão e Isaque. Ele era
herdeiro das promessas, cujo teor pode ser resumido nas palavras:
descendência, terra e bênção.
O Senhor disse: Eu
sou o Deus de Abraão e o Deus de Isaque. Ele não disse “Deus de Jacó”,
pois ainda não o era. Jacó não era ainda um servo de Deus. Veja no
versículo 20 e 21: “Se Deus for comigo, me guardar..., me der pão...,
vestes..., e eu voltar em paz..., o Senhor será o meu Deus..., e de
tudo o que me deres... te darei o dízimo.” Embora já começasse a ter
experiências com Deus, Jacó ainda se mostrava interesseiro. Parecia
querer fazer um jogo ou negócio com Deus, como se os dízimos pudessem
representar algum lucro para Deus. O mais importante não é o dízimo,
mas uma vida reta, que manifeste um caráter transformado. É fácil
prometer dízimos quando não se tem coisa alguma. Hoje em dia, muitos
entregam seus dízimos querendo receber tudo de volta multiplicado.
Fidelidade interesseira não é legítima. De qualquer forma, Deus
abençoou Jacó, não por causa de sua proposta, mas por causa das
promessas feitas a Abraão.
GN.29.1-31 – JACÓ
SE ESTABELECE NA CASA DE LABÃO E SE CASA COM LIA E RAQUEL.
Ao chegar em
Padã-Arã, Jacó conheceu Raquel, a quem amou profundamente. Raquel e Lia
eram filhas de Labão, irmão de Rebeca, portanto, primas de Jacó.
Jacó desejou se
casar com Raquel e por isso trabalhou durante 7 anos. O casamento de
Isaque, embora tenha sido feito sob o controle do pai, foi bem mais
fácil. Jacó foi mais independente, mas pagou caro por isso. Depois dos
7 anos de trabalho, ele foi enganado por Labão que, no lugar de Raquel,
lhe deu Lia por mulher (29.25). A falta de iluminação fez com que
Jacó só notasse o engano no dia seguinte. Jacó, o “enganador” colheu o
que havia plantado (31.7). Foi enganado como fizera com seu pai. Mesmo
se casando com Lia sem querer, Jacó não se separou dela, como muitos
fazem atualmente, mesmo se casando espontaneamente.
GN.29.32 A 30.24 –
O NASCIMENTO DOS FILHOS DE JACÓ.
Ao se casarem com
Jacó, Lia e Raquel receberam de seu pai as servas Bila e Zilpa. As
quatro foram mulheres de Jacó. Assim como Abraão, Jacó teve filhos com
as concubinas. Os filhos de Bila foram considerados filhos de sua
senhora, Raquel. Os filhos de Zilpa foram considerados filhos de Lia. O
conceito de propriedade tinha rigorosos desdobramentos. O que, por um
lado, pode parecer injusto, por outro garantiu a liberdade dos filhos
das escravas. Vemos que o desejo de ser filhos era maior que o ciúme
que porventura existisse. Assim, Lia ofereceu a escrava para o marido.
Raquel agiu da mesma forma, assim como Sara havia feito muitos anos
antes. Lia e Raquel sabiam o quanto era importante uma descendência
para Jacó e usaram todos os recursos possíveis para que ele tivesse
filhos. Pensando que cada filho lhes garantiria maior amor do marido,
elas passaram a concorrer entre si no objetivo de dar filhos a Jacó.
|
FILHOS DE
LIA |
FILHOS DE
BILA (escrava de Lia) |
FILHOS DE
ZILPA (escrava de Raquel) |
FILHOS DE RAQUEL
|
|
Rúben |
Dã |
Gade |
José |
|
Simeão |
Naftali |
Aser |
Benjamim |
|
Levi |
|
|
|
|
Judá |
|
|
|
|
Issacar |
|
|
|
|
Zebulom |
|
|
|
|
Diná
(filha) |
|
|
|
O nascimento de
Benjamim só ocorre em Gênesis 35.16-18. Os filhos de Raquel foram os
mais amados por Jacó. Os filhos de Lia foram os mais autoritários da
família. Os filhos das escravas e suas tribos não tiveram grande
destaque na história de Israel, embora não possamos dizer que não
tiveram importância. Judá, filho de Lia, a mulher desprezada, deu origem
à descendência de onde viria Jesus.
Conflito conjugal
– Gn.30.1-2 – Jacó e Raquel se amavam. Entretanto, o amor não garante a
ausência de conflitos. O amor não impede a ira. Raquel sentiu inveja de
sua irmã e transformou esse sentimento em uma exigência descabida,
dizendo a Jacó: “Dá-me filhos senão eu morro!”. O desejo por filhos é
legítimo. Entretanto, o que agravou a situação foi a comparação com
outra mulher. Se vivermos comparando nossa vida com a dos outros, sejam
colegas, vizinhos ou parentes, provavelmente seremos dominados pelo
sentimento de insatisfação com nossa própria condição. Podemos ser
dominados pela cobiça e pela inveja, ainda que o objeto de nosso desejo
não seja intrinsecamente errado. Desse modo, podemos colocar exigências
demasiadas sobre o nosso cônjuge, esperando dele algo que está acima de
suas possibilidades. Jacó não podia curar a esterilidade de Raquel.
Diante daquela exigência, Jacó se irou fortemente contra sua esposa. A
ira não significa ausência ou fraqueza do amor. A ira é uma emoção
momentânea. O amor, porém, é permanente. É perfeitamente normal que,
eventualmente, fiquemos irados com as pessoas a quem amamos. Contudo, o
amor garante que não perderemos o controle das nossas emoções.
“Irai-vos, mas não pequeis” (Ef.4.26). Não foi o caso de Caim, que
irou-se e matou seu irmão, visto que não o amava (Gn.4).
GN.30.25-43 – A
PROSPERIDADE DE JACÓ EM PADÃ-ARÃ.
Apesar dos
percalços que encontrou, Jacó prosperou naquela terra. Trabalhava com
os rebanhos do seu sogro e recebia cordeiros como pagamento. O mais
importante é que a bênção de Deus estava sobre ele. Os rebanhos eram
bastante férteis e o número de cordeiros de Jacó cresceu
abundantemente. Labão tentou impedir tamanho crescimento, mas todos os
tratos acabavam beneficiando Jacó. Os anos de trabalho, que poderiam
ser um modo de exploração, acabaram se tornando oportunidade de
enriquecimento. A pecuária se tornou especialidade de Jacó e de seus
filhos (Gn.46.31-34).
Depois do seu
enriquecimento, encontramos Jacó em casa e Labão no campo trabalhando.
Parece que a situação se inverteu. A primeira referência que mostra
Labão realizando algum trabalho está em Gênesis 31.19.
GN.31.1-55 – JACÓ
FOGE DE LABÃO.
Enquanto Jacó
prosperava, a riqueza do sogro diminuía. Isto acabou se tornando um
problema entre ambos. Temendo o que Labão lhe poderia fazer e sendo
orientado por Deus, Jacó resolveu voltar para a Canaã, terra de seu pai,
Isaque. Em algumas circunstâncias, não vale a pena entrar em
confronto com as pessoas. Talvez seja melhor a distância. A fuga nem
sempre é sinal de fraqueza, mas de inteligência. Aliás, Jacó não era
fraco diante de Labão. Poderia enfrentá-lo, mas não era prudente
destruir o pai de suas esposas. É melhor parecer fraco do que ser
cruel.
Vemos que Labão
também pagou por ter enganado a Jacó (31.7-9). Por fim, Jacó o enganou
(31.20,26,27).
GN.32.1-32 – JACÓ
VAI AO ENCONTRO DE ESAÚ E LUTA COM DEUS.
Desde a
experiência do sonho, quando viu uma escada indo da terra ao céu, não
encontramos Jacó orando em momento algum até chegarmos ao capítulo 32.
O verso 13, do capítulo 31, parece confirmar esta hipótese de que Jacó
não buscou ao Senhor naqueles anos, embora Deus o estivesse abençoando.
Quando, porém, ele se viu dominado pela angústia, então lembrou-se de
orar (32.6-9). O Senhor permite muitas circunstâncias ruins em nossas
vidas, pois sabe que, nessas horas, corremos para ele. Não deveria ser
assim, pois devemos buscar ao Senhor continuamente e não apenas nos
momentos de crise.
Jacó tinha diante
de si um grande desafio:encontrar seu irmão, Esaú, que pretendia
matá-lo. Diante de tão grande risco, Jacó dividiu sua família em dois
grupos, de modo que pelo menos um deles pudesse escapar com vida, de
preferência aquele onde estavam os filhos de Raquel.
Naquele momento de
sua vida, Jacó era um homem rico, cheio de bens materiais, tinha
mulheres, servos e filhos. Era um homem abençoado e próspero. O que mais
poderia querer ou precisar? Jacó precisava de uma mudança de caráter.
Isto estava representado pelo seu nome, pois Jacó significa
“enganador”. São tantos os motivos que levam as pessoas a buscarem a
Deus, mas o que mais precisam é de uma mudança de caráter.
Depois de ter
colocado a caminho sua família, seus servos e seu gado, Jacó ficou
sozinho para ter uma nova experiência com Deus.
Na nossa relação
com Deus, podemos ser conduzidos e orientados, mas em algum momento
precisamos tomar decisões individuais. Só assim teremos nossa própria
experiência e convicção. Não basta viver pedindo oração. É preciso que
cada um ore. Não é suficiente viver sustentado pelo conhecimento dos
outros. Cada um deve buscar sua própria experiência com Deus.
Jacó lutou com
Deus e prevaleceu (32.28). Isto parece absurdo mas é verdade. A luta de
Jacó tornou-se símbolo da oração persistente e determinada.
GN.33.1-20 – JACÓ
ENCONTRA-SE COM ESAÚ.
Embora Jacó
tivesse muito medo de Esáu, a bênção de Deus estava sobre ele para
livrá-lo da morte. Mas, mesmo sendo poupado no seu encontro com seu
irmão, Jacó ainda não se deu por seguro e mais uma vez mentiu. Disse que
ia para Seir, onde se encontraria novamente com Esaú, mas foi para
Sucote. Sua decisão foi baseada no medo e não numa direção de Deus.
Como conseqüência, sua família foi morar em um lugar inadequado e sua
filha foi estuprada.
GN.34.1-31 – O
ESTUPRO DE DINÁ E A VINGANÇA DE SIMEÃO E LEVI.
Diná, filha de
Lia, foi violentada por um homem chamado Siquém. Poderíamos questionar:
como Deus permitiu que a filha de Jacó passasse por uma tragédia como
essa? O compromisso com Deus é individual. O fato de ser filha de Jacó
não era suficiente para livrar Diná de todos os males. Assim, muitos
cristãos podem lamentar tragédias nas vidas de seus filhos. Contudo,
cada um vive suas próprias experiências e a fé de um não serve como
garantia para outro, embora possa beneficiá-lo de várias formas.
Os irmãos de Diná,
Simeão e Levi, ficaram revoltados com aquele fato e executaram uma
vingança sangrenta, matando todos os homens daquele povoado. Eles
usaram de engano (34.13), como aprenderam pelos exemplos do pai Jacó.
Vemos que os
filhos não consultaram ao seu pai, nem buscaram direção de Deus, mas
tomaram sua própria decisão para cometerem um mal pior do que o
primeiro. Naquela altura da narrativa bíblica, percebemos que os filhos
de Jacó já eram adultos e chegavam a tomar decisões relacionadas à
família sem o consentimento ou conhecimento por parte do pai. Vemos uma
inversão na ordem familiar e as conseqüências desse mal. Contudo, o
próprio Jacó já tinha dado o mal exemplo, pois outrora havia enganado
seu pai Isaque.
Naquele momento,
Jacó questionou a decisão de Simeão e Levi. Eles o retrucaram e acabou o
assunto. Terminamos o capítulo 34 com a impressão de que a autoridade de
Jacó estava liquidada e que os filhos tinham todo o controle da situação
e que os seus erros tinham ficado impunes. Porém, Jacó ainda tinha o
poder de abençoar ou amaldiçoar os filhos. Muito tempo depois, no
capítulo 49, Jacó profere o juízo contra aqueles filhos violentos. Da
mesma forma, hoje em dia, pode parecer que os malfeitores estão ficando
impunes. Contudo, o juízo final virá para dar a cada um a sua
recompensa.
GN.35.1-29 – JACÓ
VOLTA A BETEL. O NASCIMENTO DE BENJAMIM. A MORTE DE ISAQUE.
A volta de Jacó a
Betel, que significa “casa de Deus”, apresenta aspecto de
reconciliação. Depois daquela experiência trágica, quando toda a sua
família foi colocada em perigo (34.30), Jacó ouviu a voz de Deus,
mandando que ele subisse a Betel. Quantas famílias estão
destruídas, divididas, e precisam voltar para a “casa de Deus”! Os
primeiros versículos do capítulo 35 nos mostram um Jacó mais ousado,
retomando sua posição de autoridade familiar. Sua primeira atitude
foi lançar fora os ídolos. Observe que aqueles falsos deuses haviam
sido trazidos da casa de Labão e, até então, Jacó os tinha tolerado. O
mal que toleramos em nossas casas pode nos levar à destruição. Jacó,
porém, tomou uma atitude antes que fosse tarde demais.
As atitudes de
Jacó foram:
- Destruição dos ídolos.
- Purificação. Podemos comparar esta etapa com o
perdão do pecado mediante a confissão a Deus ou à pessoa ofendida. Esta
purificação é interior.
- Troca das vestes. Nosso testemunho exterior deve
refletir a purificação interior. Não adianta apenas trocar as vestes,
pois isto seria apenas uma mudança de fachada. Esta mudança de vestes
não implica numa questão de figurino. As vestes representam nosso modo
de vida, nossas ações (o que acaba incluindo o nosso jeito de vestir).
- Subir a Betel. Em nosso contexto atual, Betel
representa a igreja. Esta é a casa de Deus na terra. Não nos referimos
aos templos de tijolos, mas ao conjunto dos salvos. Aquele que tem ou
deseja um compromisso com Deus, deve se unir aos que da mesma forma
servem ao Senhor.
- Construir um altar. Não basta destruir os
ídolos, se no lugar deles nada for construído. Construir o altar
significa praticar atos de busca ao Senhor, tais como a oração e o
jejum.
Estas expressões
nos mostram mudança de vida, de propósito, busca ao Senhor
e compromisso com ele. Como resposta, Deus fez com que os
inimigos de Jacó ficassem apavorados diante dele e não o perseguissem.
Quando buscamos ao Senhor e nos purificamos, ele nos livra dos nossos
inimigos (35.5).
Até então, as
experiências de Jacó tinham sido individuais. Isto era necessário e
indispensável. Entretanto, quando Deus falou com Jacó, ele não se
restringia ao campo individual. A família sempre era incluída. No cap.
34, ficou demonstrado que a família de Jacó estava bastante prejudicada
e até corrompida. Diná foi estuprada. Simeão e Levi se tornaram
homicidas. Raquel era idólatra e parece que outros familiares também.
Jacó tomou então uma atitude e conclamou sua família a uma busca
coletiva ao Senhor. Aquela experiência foi benéfica para todos, mas
cremos que, particularmente, representou muito para José que,
individualmente, teria um relacionamento sólido com Deus.
A narrativa
prossegue com o nascimento do último filho de Jacó, Benjamim (35.16), em
cujo parto morreu Raquel. A reconciliação com Deus, observada nos
versos anteriores, aconteceu em um momento fundamental para Raquel, pois
sua morte estava bem próxima. De fato, ela aproveitou a última
oportunidade que teve. É importante que cada pessoa busque ao Senhor no
dia de hoje, pois não sabemos qual será nossa última oportunidade.
Outro fato de
destaque no capítulo 34 é que Rúben, o filho mais velho de Jacó, teve
relacionamento sexual com Bila, a concubina de seu pai (35.22). Parece
que Jacó falhou na educação dos filhos. Temos vários motivos para crer
assim (Cap.37). José foi uma exceção devido à sua própria experiência
com Deus. Um dos problemas que existiam dentro daquela casa era a
preferência por alguns filhos em detrimento de outros. Jacó preferia os
filhos de Raquel: José e Benjamim. Em segundo lugar vinham os filhos de
Lia e, por último, os filhos das servas. Vemos que a poligamia teve
conseqüências negativas para os filhos. Esse problema de preferência
já existia entre os pais de Jacó. Este era o preferido de sua mãe,
enquanto que Isaque amava mais a Esaú.
Já mencionamos a
inversão da ordem de autoridade na família de Jacó. Ao que parece, os
filhos normalmente faziam o que queriam. O ato de Rúben foi o ponto
culminante de um longo processo. De tanto tomar decisões no lugar do
pai, resolver também usurpar a mulher de seu pai. Rúben era o
primogênito, mas não teve nenhuma bênção especial ou destaque entre os
filhos de Jacó. Pelo contrário, foi duramente repreendido (cap.49).
Depois destas
coisas, Jacó voltou para a terra de seu pai Isaque que, algum tempo
depois, faleceu, aos 180 anos. Pelo direito de primogenitura, Jacó
herdou todos os bens de seu pai.
GN.37.1-36 – OS
SONHOS DE JOSÉ E A INVEJA DE SEUS IRMÃOS. JOSÉ É VENDIDO COMO ESCRAVO.
José foi o que
mais se destacou entre os filhos de Jacó. Talvez, devido à intimidade
que tinha com seu pai, recebeu mais ensinamentos sobre Deus e tornou-se
um homem exemplar.
Foram três as
razões principais para o surgimento de grandes barreiras entre José e
seus irmãos.
1- Ele era o preferido do pai (37.3), por ser filho de
Raquel, a amada de Jacó. Benjamim também era filho de Raquel, mas José,
sendo mais velho, era tratado como se fosse o primogênito, embora o
primeiro filho de Jacó fosse Rúben, com a esposa Lia. Jacó fazia o
melhor que podia para José.
2- José tinha sonhos revelados, cujo significado
indicava que ele teria autoridade sobre seus irmãos. Isto parecia
absurdo, principalmente para os irmãos mais velhos, inclusive Rúben.
Como poderia o penúltimo filho dominar sobre todos os demais? Os planos
de Deus não estão presos às nossas expectativas nem à nossa idéia de
justiça. Muitas vezes acontece dos últimos serem os primeiros
(Mt.19.30). Nesse caso, o penúltimo foi o primeiro.
3- Os irmãos de José não o amavam. A história da
família de Jacó foi problemática desde o princípio, embora fosse uma
família escolhida por Deus. A poligamia, as divisões e as preferências
dentro lar talvez sejam a explicação para o fato de que os irmãos de
José não o amavam. Pelo contrário, eles o invejaram (37.11),
odiaram (37.4,5,8) e resolveram matá-lo (37.18). Veja a
seqüência de males crescentes. Um abismo chama outro abismo (Salmo 42),
e esse tipo de situação não é raro nas famílias e na sociedade moderna.
José só não foi morto devido à intervenção divina a seu favor.
JOSÉ – UM JOVEM EXEMPLAR
José tinha ainda
17 anos (Gn.37.2) quando teve seus sonhos revelados. Podemos ver nele
o exemplo de um jovem que servia a Deus. Sua história deve servir de
inspiração para os jovens crentes da atualidade.
É normal que o
jovem seja um sonhador, no sentido figurado da palavra. Quais são os
sonhos que os jovens têm tido? Seus desejos, planos, projetos ou até
mesmo fantasias, revelam muito do seu caráter. Se tivermos compromisso
e experiência com Deus, sonharemos com a concretização da vontade de
Deus em nossas vidas.
José contou seus
sonhos para seu pai e seus irmãos. Será que ele deveria ter contado?
Talvez sim, mas isto nem sempre é aconselhável ou, mesmo que contemos
nossos sonhos, não podemos contá-los para qualquer pessoa. José, porém,
contou para sua família, considerando-os dignos de confiança. Seus
irmãos, entretanto, se indignaram com o significado daqueles sonhos e
decidiram matá-lo. Eles imaginaram que poderiam impedir que aqueles
sonhos se realizassem (37.18-20). Entretanto, é impossível impedir o
plano de Deus. Enquanto se esforçavam nesse sentido, acabaram
contribuindo, involuntariamente, para que o propósito divino se
concretizasse. “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a
Deus, daqueles que foram chamados segundo o seu propósito” (Rm.8.28).
Rúben, em raro momento de acerto, impediu que José fosse assassinado
(Gn.37.21). O primogênito demonstrou sua liderança entre os irmãos. Em
seguida, tiraram sua túnica e o lançaram numa cisterna. Depois o tiraram
de lá para vendê-lo como escravo e assim foi levado para o Egito que
era, exatamente, o lugar determinado por Deus para o cumprimento dos
sonhos proféticos (Gn.37.28).
JOSÉ – SÍMBOLO DE
CRISTO EM GÊNESIS
José se tornou uma
figura de Cristo. Podemos traçar vários paralelos entre ambos,
mostrando suas trajetórias da casa do pai até o lugar de sofrimento e
depois o caminho de ascensão à glória. Mencionamos alguns pontos comuns
no quadro a seguir, sem levar em conta a ordem cronológica dos fatos.
|
VIDA DE
JOSÉ |
TEXTO |
VIDA DE
CRISTO |
TEXTO |
|
Tiraram
sua túnica |
Gn.37.23 |
Tiraram
sua túnica |
Mt.27.28,35 |
|
Roupa
manchada com sangue. |
Gn.37.31 |
Roupa
manchada com sangue. |
Ap.19.13 |
|
Lançado na
cisterna. |
Gn.37.24 |
Sepultado. |
Mt.27.59-60 |
|
Retirado
da cisterna. |
Gn.37.28 |
Ressuscitado. |
Mt.28.7 |
|
Vendido
por 20 siclos de prata. (228 gr.) |
Gn.37.28 |
Vendido
por 30 moedas de prata. |
Mt.26.15 |
|
Escapou da
morte e foi para o Egito |
Gn.37.28 |
Escapou da
morte e foi para o Egito |
Mt.2.13 |
|
José
recebeu autoridade de Faraó |
Gn.41.40-41 |
Jesus
recebeu autoridade de Deus |
Mt.28.18 |
|
Só Faraó
era superior a José. |
Gn.41.40 |
O Pai é
superior a Jesus. |
João 5.30;
15.15 |
|
Todos
deveriam se ajoelhar diante dele. |
Gn.41.43 |
Todo
joelho se dobrará diante de Jesus |
Fp.2.10 |
|
Recebeu o
nome de Salvador do mundo |
Gn.41.45 |
Jesus é o
Salvador do mundo. O nome “Jesus” significa Salvador. |
Mt.1.21 |
|
Tinha 30
anos quando entrou na presença de Faraó para ser governador. |
Gn.41.46 |
Jesus
tinha cerca de 30 anos quando começou seu ministério. |
Lc.3.23 |
|
Todas as
nações iam a José, pois só ele tinha suprimento |
Gn.41.57 |
Todas as
nações serão regidas por Cristo. |
Apc.12.5;
19.15 |
Considerando o
salário de um trabalhador do Novo Testamento, quase 4 gramas de prata
por dia, o valor pelo qual José foi vendido corresponderia
aproximadamente a 57 dias de trabalho. Estamos fazendo comparação com o
salário de uma época muito posterior, mas é apenas para nos dar uma
idéia de valor. Concluímos então que José foi vendido por um preço muito
baixo. Afinal, seus irmãos não o valorizavam. O mesmo aconteceu com
Jesus. Jesus foi avaliado em 30 moedas de prata. Qualquer quantidade de
prata seria injusta como preço para se vender o Senhor. Assim, nada
existe neste mundo que possa justificar a rejeição contra Cristo ou a
renúncia ao evangelho. Muitos estão “vendendo Jesus” como Esaú vendeu
seu direito de primogenitura.
José sonhou com o
propósito de Deus e entendeu os sonhos. Contudo, sua história, a partir
daquele momento, tomou um rumo que parecia totalmente contrário ao que
Deus lhe havia prometido. Foi lançado numa cisterna, depois foi vendido
com escravo e, como se tudo isso não bastasse, tornou-se prisioneiro.
Ele viveu vários
momentos muito difíceis. Podemos pensar, por exemplo, naqueles
instantes, ou talvez horas, que José passou no fundo da cisterna. Tudo
parecia estar perdido. Nada havia que José pudesse fazer para se salvar.
Contudo, Deus providenciou seu escape. Assim também, em muitas situações
podemos nos ver “no fundo do poço”, sem solução aparente. Se olharmos
para baixo ou para os lados não veremos saída. Porém, se olharmos para
cima, teremos esperança, pois de lá virá o nosso livramento.
Segundo Erlinho Oliveira, “Se você colocar um falcão em um cercado de
um metro quadrado, e inteiramente aberto por cima, o pássaro, apesar de
sua habilidade para o vôo, será um prisioneiro.
A razão é que um falcão sempre começa seu vôo com uma pequena corrida
em terra.
Sem espaço para correr, nem mesmo tentará voar e permanecerá um
prisioneiro pelo resto da vida, nessa pequena cadeia sem teto.
O morcego, criatura notavelmente ágil no ar, não pode sair de um lugar
nivelado.
Se for colocado em um piso completamente plano, tudo que ele conseguirá
fazer é andar de forma confusa, dolorosa, procurando alguma ligeira
elevação de onde possa se lançar.
“
Muitos servos de
Deus passam por situações que parecem totalmente contrárias às promessas
de Deus. Contudo, não devem abrir mão de sua fé. Não devem murmurar nem
blasfemar, pois Deus continua no controle da nossa história. Devemos
olhar para cima e buscar o socorro do Senhor. Todos os males na vida de
José só serviram para empurrá-lo rumo ao posto de governador do Egito.
Os irmãos de José
disseram a Jacó que ele havia sido morto por um animal selvagem. Jacó,
que tantas vezes enganou os outros, foi enganado mais uma vez, de forma
amarga e cruel (Gn.37.31-34).
DIREÇÃO DE DEUS
Deus falou de
várias maneiras aos patriarcas. Algumas vezes, falou diretamente. Em
outras, comunicou-se através de sonhos, como fez com Jacó e com José.
Outras vezes, Deus dirigiu a vida de José sem nada lhe falar, mas
guiando-o por meio das circunstâncias, mesmo que fossem negativas. Não
podemos padronizar o falar e o agir de Deus. Talvez queiramos
profecias, mas ele pode falar conosco de outros modos. O mais
importante era a presença de Deus na vida de José. Onde quer ele
estivesse, na casa de Jacó, no fundo da cisterna, na casa de Potifar, na
prisão ou no palácio de Faraó, Deus estava com ele (Gn.39.2,3,21).
“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temerei mal
algum porque tu estás comigo “ (Salmo 23.4).
GN.38.1-30 – JUDÁ
E TAMAR – UMA TRAGÉDIA FAMILIAR.
O capítulo 38 se
dedica a narrar fatos relacionados a Judá, filho de Jacó. Muitos erros e
conseqüências se alternaram num ciclo vicioso. “Um abismo chama outro
abismo” (Salmo 42.7).
O texto começa
dizendo que Judá desceu de entre seus irmãos. Muitas vezes em
Gênesis, o verbo descer precede um erro ou pecado. Judá saiu da
comunhão, como antes acontecera com Diná. Em seguida, tomou uma
atitude individualista e errada ao se casar com uma mulher cananéia.
Temos então um exemplo de “jugo desigual”. Judá, um homem do povo
escolhido por Deus, casou-se com uma mulher que pertencia a um povo
idólatra e amaldiçoado. Tal mistura trouxe várias conseqüências ruins,
conforme podemos verificar no texto. Os filhos daquele casal tornaram-se
homens maus. Dois deles, Er e Onã, foram mortos pelo Senhor. Tinham o
mau exemplo do pai e a influência cananéia da mãe. Os erros relacionados
ao casamento, ou às uniões extra-conjugais, podem causar muitos danos
ao caráter e à vida dos filhos.
Os filhos não se
perderiam apenas por causa do pecado dos pais, mas eles mesmos se
mostraram maus, devido ao seu caráter e suas ações.
Er, filho de Judá,
casou-se e morreu sem deixar descendência. Seu irmão, Onã, casou-se com
a viúva, Tamar, mas morreu também sem deixar descendência. Então, Judá
prometeu à mulher que o terceiro filho, Selá, seria dado a ela por
marido, assim que tivesse idade para tal. Contudo, o menino cresceu e a
promessa não foi cumprida. Vemos outro erro de Judá. Tamar ficaria
então sem marido e sem filhos. Isto, além de ser desonroso para a mulher
sob o ponto de vista cultura da época, também poderia representar falta
de sustento quando seu pai morresse. Diante disso, Tamar disfarçou-se
de prostituta cultual e teve relacionamento sexual com seu ex-sogro,
Judá. Esta foi uma das histórias mais vergonhosas da bíblia. Judá, que
a esta altura, tinha ficado viúvo, se dispôs a ter relação com uma
prostituta. A falta de sua esposa tornou-se oportunidade para o pecado,
embora não fosse justificativa suficiente. O diabo sempre aproveita
nossas necessidades para nos oferecer algo que possa supri-las. Ao
aceitarmos suas ofertas, estaremos pecando contra o Senhor, como
aconteceu com Eva no Éden.
Judá foi tentado
pelo aspecto sensual daquela mulher, que tinha se disfarçado cobrindo o
rosto. O pecado é assim, tem uma aparência agradável e atraente.
Contudo, o perigo está oculto e mais tarde se manifestará. Judá pode
ter imaginado que seu pecado não teria conseqüências. Ninguém estava
vendo. Ele teria apenas uma relação sexual com aquela mulher e nunca
mais a veria. Contudo, cada passo em direção ao pecado vai
comprometendo o homem e dificultando o seu retorno ao caminho direito.
Judá foi como uma ave que caminha para o laço. O pecado não é gratuito.
Aquela mulher tinha um preço e, como Judá não tivesse como pagar, deixou
alguns pertences como garantia até que lhe enviasse o pagamento.
Tamar engravidou e
usou aqueles objetos como meio de reconhecimento do pai da criança. O
pecado apresentará sua cobrança (38.16,25,26) ainda que, no presente,
pareça gratuito ou até lucrativo. O preço, que Judá imaginava ser um
cabrito, era, de fato, a sua honra e o sustento da criança.
O erro de Judá
teve também aspecto religioso. Tamar se disfarçou de prostituta cultual
(38.21), ou seja uma mulher que participava de rituais idólatras. Mesmo
assim, Judá não hesitou em se relacionar com ela, mesmo que isso
representasse uma ofensa ao Senhor.
Quando soube que
sua nora estava grávida, Judá mandou rapidamente que ela fosse lançada
na fogueira. Seu juízo sobre o pecado alheio era rápido e fulminante.
Contudo, não se deu conta de que aquele pecado era também dele. Temos
facilidade em condenar os outros quando pecam. A misericórdia e o perdão
não vêm de imediato ao nosso coração, mas somos bastante compreensivos
com os nossos próprios erros. “Ama o teu próximo como a ti mesmo”.
Da união entre
Judá e Tamar nasceram Perez e Zerá. O mais incrível é que da
descendência de Perez nasceu Jesus (Mt.1.3). Vemos que Deus transforma
maldição em bênção, mas isto não significa que devemos buscar a
maldição, pois muitos a buscaram e foram destruídos por ela, pois não se
arrependeram de seus pecados.
GN.39.1-23 – JOSÉ
NA CASA DE POTIFAR.
Passando do
capítulo 38 para o 39, percebemos um grande contraste entre o caráter de
Judá e o de José.
Chegando ao Egito,
José foi trabalhar como escravo na casa de Potifar, um oficial de
Faraó. Estando longe da casa de seu pai, e no meio de pessoas que não
criam no verdadeiro Deus, José poderia “relaxar”, abrir mão de seus
princípios morais, e até se permitir na prática do pecado. Porém, vemos
que aquele jovem era íntegro, não por estar sendo vigiado ou controlado
por alguém. Ele tinha fé e experiência pessoal com Deus. Sua situação
e comportamento nos fazem lembrar também a história de Daniel, que foi
levado cativo para a Babilônia e lá permaneceu íntegro e fiel ao Senhor.
Outra semelhança é que ambos eram jovens e interpretaram sonhos.
O lugar e as
condições de José não eram as melhores, mas Deus estava com ele
(Gn.39.2,3,21,23). Isto é o mais importante. Não adianta ter riqueza,
conforto e prestígio sem a presença de Deus.
José, um servo de
Deus, era escravo de um homem ímpio. Isto era uma aparente
contradição. Era de se esperar que o homem de Deus fosse sempre
superior. Contudo, esta não era a realidade de José e isto era
totalmente contrário aos seus sonhos. Muitas vezes vemos os ímpios
prosperando, mas não devemos nos perturbar com isso (Salmo 73).
Continuemos no nosso caminho, de acordo com a vontade do Senhor.
Precisamos ter paciência e esperar. Aqueles que julgam conforme a
aparência poderiam tirar conclusões erradas sobre a vida de José.
Poderiam dizer que ele estava em pecado ou que não conhecia Deus.
Contudo, estariam errados. Dentro de alguns anos, José se tornaria
superior a Potifar na corte egípcia. Deus tem um tempo apropriado para
todas as coisas.
Está escrito que
“o Senhor estava com José, e ele tornou-se próspero... na casa do seu
senhor egípcio...” (Gn.39.2-3). A prosperidade de José era algo bastante
estranho. Como pode haver um escravo próspero? Mas José
prosperou. Prosperidade não é sinônimo de riqueza como muitos acreditam.
Ser próspero é ser bem sucedido naquilo que se faz. José trabalhava bem.
Seu trabalho tinha excelente qualidade. Assim, seu senhor passou a
confiar totalmente nele, colocando-o como mordomo sobre a sua casa. Se
queremos prosperar, precisamos trabalhar bem. Onde o cristão estiver ele
precisa ser um exemplo. Se for um escravo, que seja o melhor escravo.
Se for um mau escravo, nunca deixará de sê-lo. Logo aquele jovem se
tornou um mordomo, responsável por tudo naquela casa.
José precisava
passar aquele tempo na casa de Potifar. Ele estava sendo preparado para
sua responsabilidade futura. Estava aprendendo a cultura do Egito,
aprendendo a ser um líder e administrador. José não poderia chegar ao
Egito e ir direto para o palácio. Precisava sentir na pele o que sentiam
os pobres, escravos e prisioneiros. Assim, seria um governador mais
sensível às necessidades do povo. Isto nos lembra que Cristo também
desceu da sua glória e sentiu o sofrimento humano.
Sendo o homem de
confiança de Potifar, José já não estava em situação de grande
sofrimento. As coisas pareciam melhorar para ele. O jovem usufruía de
toda regalia na casa de seu senhor, mas essa liberdade tinha um limite:
ele não poderia tocar na mulher de Potifar. Isto nos lembra a situação
de Adão e Eva no jardim do Éden, onde tinham acesso a todas as árvores,
exceto uma. O pecado acontece quando queremos exatamente aquilo que nos
foi vedado por Deus. Não foi o caso de José, porque ele não cobiçou sua
senhora. Porém, o inimigo armou-lhe uma cilada. A mulher de Potifar quis
adulterar com José, mas o rapaz fugiu (39.12). Atualmente, um homem que
foge de uma mulher é chamado de homossexual, mas José fugiu por ser um
homem espiritual, um servo de Deus, que vivia de acordo com sólidas
convicções que havia em seu coração. Estando próximo dos 20 anos de
idade, José já tinha necessidade sexual. E como já dissemos, no momento
da necessidade o Diabo nos oferece algo para satisfazê-la. José não
caiu naquele laço, pois esperava pela esposa que o Senhor lhe daria.
José não admitiu deitar-se com ela nem estar com ela
(39.10). A integridade é abrangente. Uma pequena concessão poderia
abrir caminho para uma seqüência de erros que levariam ao pecado. Irada
com aquela atitude, a mulher de Potifar acusou José de tê-la molestado.
José foi envergonhado diante de todos e, como não houvesse testemunha
que pudesse defendê-lo, foi lançado na prisão.
Com base no que
vimos no capítulo 38, deduzimos que, se Judá estivesse no lugar de José,
teria adulterado com a mulher de Potifar, teria filhos com ela e seria
condenado à morte. Portanto, José foi usado por Deus porque possuía um
caráter íntegro. Nenhum dos seus irmãos serviria para aquela missão.
GN.40.1-23 – JOSÉ
NA PRISÃO. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS DO COPEIRO E DO PADEIRO.
José foi preso
injustamente. Aliás, ele foi vítima de muitas injustiças em toda a sua
história. O mais impressionante é que Deus não impediu que
aquelas injustiças fossem cometidas. Isto não significa que Deus seja
injusto. Tudo aquilo fazia parte do caminho de José e, por meio daqueles
fatos, Deus o conduziria ao governo do Egito. Todas aquelas pedras que
lhe foram lançadas serviram para pavimentar sua estrada em direção ao
poder. O mesmo aconteceu na história de Jesus. Ninguém foi tão
injustiçado quanto ele. Foi perseguido, acusado, odiado, preso,
açoitado, crucificado e morto, mas tudo isso contribuiu para que a sua
obra na terra fosse consumada de modo glorioso.
De escravo, José
passou a prisioneiro. Parecia estar indo de mal a pior. Ele poderia
revoltar-se, pensar que Deus o havia abandonado ou que Deus não existia.
Podia se entregar ao pecado e, assim, perder tudo o que Deus tinha para
ele. Contudo, não blasfemou, não murmurou, não perdeu sua fé nem sua
integridade. José não tinha pleno conhecimento do plano de Deus, mas
confiava plenamente em Deus e estava convicto do seu vínculo com ele
(40.8; 41.16).
Onde ele chegava
tornava-se líder. Até na prisão, José foi líder (39.5,22). Se o servo
de Deus está na prisão, ele deve ser um prisioneiro exemplar.
José foi assim. Quem é fiel no pouco será fiel no muito (Lc.16.10).
Entre os
prisioneiros estavam o copeiro e o padeiro do rei. Ambos sonharam e seus
sonhos foram interpretados por José. É interessante observarmos que
Deus falou com aqueles homens ímpios por meio de sonhos. Da mesma forma,
falou a Faraó (41.25). Deus ama a todos, quer que todos se salvem e,
antes da salvação, deseja livrar as pessoas de males diversos. Algumas
vezes isso não é possível pois a conseqüência do pecado deve cair sobre
o pecador que não se arrepende.
TEMPO DE DEUS
José entendeu o
destino do copeiro e do padeiro, mas não entendeu o seu próprio. Chegou
até a pedir ajuda ao copeiro para que intercedesse por ele diante de
Faraó (40.14). Porém, não adianta tentar antecipar o tempo de Deus
(Gn.41.1; Ec.3.11). José não seria útil para Faraó antes dos sonhos
do rei que, por sua vez, ocorreriam em um tempo determinado: 7 anos
antes da fome. José poderia ser livre, mas seria inútil. O plano
de Deus era que ele fosse da prisão para o palácio. Não podia se perder
entre um e outro lugar.
José estava com 30
anos quando se apresentou a Faraó (41.46). Já havia passado 13 anos
desde que tivera seus sonhos revelados. Antes, José não teria maturidade
nem experiência suficiente para grande responsabilidade que haveria de
assumir no governo do Egito.
Podemos
considerar que aquele pedido de ajuda foi um erro de José. O livro de
Gênesis relata erros e pecados de seus heróis. Todos os homens de Deus
continuam sendo homens, embora sejam de Deus. São falhos. Não são
perfeitos. Porém, o tipo de erro ou pecado que chegam a cometer podem
desqualificá-los para certas funções no reino de Deus ou até mesmo
excluí-los dele (Heb.12.14-17; Gal. 5.19-21). O maior problema não está
simplesmente em um ato, embora os atos pecaminosos sejam condenáveis,
mas numa opção de vida, nos traços do caráter. Em alguns casos, um ato
já é suficiente para desqualificar uma pessoa. Por exemplo, se um homem
de Deus caiu em adultério, não será útil para algumas missões, pois caiu
em descrédito público.
José, por seu
caráter ímpar, foi usado por Deus de modo ímpar.
GN.41.1-57 – JOSÉ
INTERPRETA OS SONHOS DE FARAÓ E TORNA-SE GOVERNADOR DO EGITO.
Deus falou a Faraó
para que o Egito se preparasse para enfrentar os sete anos de fome.
Deus está no controle da história e muitas vezes dirige a mão dos
governantes, mesmo que não conheçam o Senhor (Is.45.1; Pv.21.1). Ele o
faz para o bem de muitos, principalmente dos justos. Isto não significa
que todos os atos dos governantes sejam dirigidos por Deus, mas, quando
não são dirigidos, são permitidos.
Se Deus não
falasse a Faraó, milhares de pessoas morreriam, mas creio que o mais
importante era que a família de Jacó fosse preservada. Afinal, a
promessa feita a Abraão precisava se cumprir e, por meio daquela
família, haveria de nascer Jesus, o Salvador.
O Egito era
politeísta. Contudo, sua multidão de deuses foi totalmente inútil quando
Faraó precisou deles (41.8). Nenhum dos adivinhadores conseguiu
interpretar seus sonhos. O texto nos mostra a insuficiência das
religiões e das divindades egípcias. O próprio Faraó era considerado
uma divindade. O Deus de Israel foi exaltado pois deu os sonhos, deu a
interpretação e sabedoria a José para resolver o problema da fome.
Enfim, Deus se mostrou Senhor da história. Quantos, ainda hoje, buscam
os falsos deuses, inclusive tentando resgatar o paganismo egípcio. Isto
de nada lhes aproveitará como não aproveitou a Faraó.
Curiosidade :
Gn.41.14 – José se barbeia antes de encontrar Faraó.
A SOLUÇÃO PARA OS SETE ANOS DE FOME
Haveria sete anos
de fartura seguidos por sete anos de fome. José ensinou os egípcios a
poupar. Ao que parece, os povos não tinham o hábito de guardar
alimentos. Tudo o que produziam era consumido. Até entre os animais
encontramos exemplos para uma vida sábia (Pv.30.24-25; Pv.6.6). As
formigas guardam alimento para o inverno.
Em nossas vidas,
temos tempos de abundância e tempos de escassez. Aquele que não guarda
poderá padecer necessidade. Há, porém, aqueles que sempre viveram na
necessidade e nada lhes sobrou que pudesse ser guardado.
José mandou
guardar 20% da produção dos sete anos de fartura. Guardar tudo ou
gastar tudo são duas atitudes que demonstram falta de sabedoria
(Ec.4.7-8; 5,13,18,19). Precisamos buscar um ponto de equilíbrio. Os
egípcios deveriam poupar 20% e usufruir dos 80% restantes.
Os 20% da
produção, poupados por ordem de José, foram suficientes para o sustento
do Egito nos sete anos de escassez e ainda sobrou para venderem aos
povos vizinhos. Vemos então que, nos sete anos de fartura, eles gastaram
80%, sendo que 20% seriam suficientes. Nota-se então que o esbanjamento,
o excesso e o desperdício eram práticas comuns no Egito.
JOSÉ – GOVERNADOR DO EGITO
Todos os
sofrimentos de José faziam parte do caminho que o levariam ao governo do
Egito. Quando nasceu seu filho Efraim, José disse: “Deus me fez crescer
na terra da minha aflição” (Gn.41.51-52). Todos querem crescer, mas não
suportam a aflição. Murmuram, blasfemam, fogem, abandonam o lugar
determinado por Deus. Logo, não crescem. Entre os filhos de Jacó, José
foi o que mais sofreu. Em compensação, foi o mais usado por Deus.
Faraó, o rei do
grande Egito, nomeou José como governador. Vemos aí um exemplo de
delegação de autoridade. Para fazer isso, o líder precisa ter visão
ampla para identificar talentos nas outras pessoas. Precisa ter a
humildade suficiente para reconhecer que não pode resolver tudo
sozinho. Precisa ser capaz de confiar em seus subordinados.
Delegar autoridade significa outorgar poder a um subordinado para agir
em nome de seu superior, podendo tomar decisões e administrar recursos.
Aquele que foi
investido de autoridade não pode se esquecer de que não é superior
àquele que o nomeou. José tinha liberdade de ação até o limite
determinado por Faraó. Todo aquele que ocupa posição de autoridade
precisa também ser submisso. José continuava submisso ao rei e este era
o limite do seu poder.
Aqueles que
desconsideram esse limite, acabam abusando da própria autoridade
e cometendo erros que podem conduzi-los à ruína.
Tendo delegado tal
autoridade, Faraó foi o primeiro a respeitar as ações de José
(Gn.41.55). Aquele que nomeia alguém para uma função de liderança deve
respeitar o nomeado, apoiando suas decisões, enquanto forem corretas, e
até mesmo se sujeitando às diretrizes estabelecidas. Faraó não entrou
na área de ação de José, não tomou decisões no lugar dele, mas respeitou
a autoridade que ele mesmo designou.
GN.42.1-38 – OS
IRMÃOS DE JOSÉ DESCEM AO EGITO.
Aqueles que hoje
nos desprezam poderão nos procurar amanhã para buscarem ajuda, ou nós,
se desprezarmos alguém, poderemos ser humilhados diante da mesma pessoa.
Foi o que aconteceu com os irmãos de José. Aqueles que o invejaram,
odiaram e venderam, precisaram passar pela humilhação de buscarem o seu
auxílio.
José poderia
destruí-los, mas usou de misericórdia. Tratou bem aqueles que o
maltrataram. “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver
sede, dá-lhe de beber” (Rm.12.20).
GN.43.1-34 – A
SEGUNDA VIAGEM DOS IRMÃOS DE JOSÉ AO EGITO.
Jacó ordenou que
seus filhos levassem vários produtos da terra para José: bálsamo, mel,
arômatas, mirra, nozes de pistácia e amêndoas. O que poderiam oferecer
a José, o homem poderoso do Egito, que detinha a abundância de
alimentos?
Reuniram tudo o
que puderam afim de agradá-lo e convencê-lo de que tinham boas
intenções.
Os irmãos de José
estavam dominados pelo medo, pois se sentiram culpados e indefesos
diante dele (Gn.43.23).
José os colocou à
prova para saber se eles estavam arrependidos, se falavam a verdade e se
eram íntegros. Eles não mentiram a José nem uma vez. Se mentissem, José
saberia.
Em suas táticas em
relação aos irmãos, José deu muitas ordens estranhas ao seus criados.
Ninguém entendeu nem questionou. Afinal, a autoridade de José deveria
ser respeitada e suas ordens obedecidas.
GN.44.1-34 – A
TAÇA DE JOSÉ NO SACO DE BENJAMIM.
A relação dos
irmãos de José com ele se parece com nossa relação com Jesus. Nós o
buscamos por necessidade depois de termos feito tantas coisas contra
ele, tantos pecados, tantos erros. Quantas vezes o negamos, o vendemos,
o trocamos por outras coisas. Apesar de tudo ele nos recebe. Tendo
todo poder para nos destruir, ele nos dá o alimento a cada dia. Poderia
nos odiar, mas ele nos ama.
Saímos da sua
presença, mas ele nos dá motivos para retornar. Reconhecemos nossos
erros e aguardamos o castigo, mas, diante do nosso arrependimento ele
nos perdoa. Os irmãos de José mereciam ser castigados, mas foram
perdoados e receberam o que não mereciam.
Não o conhecemos
muito bem, mas ele nos conhece profundamente. Trazemos pouco para
oferecer-lhe, mas ele nos dá a sua abundância, nos recebe em sua casa e
nos prepara uma mesa farta (Gn.43.16; Salmo 23.5). Nossos pecados o
entregaram à morte, mas ele nos dá a vida.
GN.45.1-28 – JOSÉ
SE REVELA AOS SEUS IRMÃOS.
A essa altura da
narrativa, os irmãos de José tinham conceitos equivocados a respeito
dele. Pensavam que ele era um egípcio, que não entendia seu idioma e
que lhes tomaria como escravos. Enquanto falavam entre si, José os
entendia perfeitamente. Quantas vezes pensamos que Jesus está distante e
que não nos vê ou não nos compreende, mas ele está perto, conhece até os
nossos pensamentos e tem propósitos maravilhosos para nós. Afinal,
somos filhos do mesmo Pai e unidos pelo mesmo sangue, o próprio sangue
de Jesus.
José poderia ter
se revelado aos seus irmãos no seu primeiro encontro. Porém, todas as
dificuldades colocadas por ele serviram para conduzi-los à reflexão, ao
reconhecimento dos seus pecados e ao arrependimento (Gn.42.21; 44.16).
Da mesma forma, o Senhor permite que passemos por aflições para
reconhecermos os nossos pecados e buscarmos o seu perdão.
Quando os seus
propósitos foram alcançados, José se revelou aos seus irmãos. Chegará o
dia quando Jesus se revelará a nós, em sua segunda vinda. Todos os
nossos conceitos errados e temores (43.23) se desfarão como a névoa.
GN.46.1-34 –
VIAGEM DE JACÓ AO EGITO.
GN.47.1-12 – JACÓ
E SUA FAMÍLIA SE ESTABELECEM NO EGITO.
GN.47.13-31- JOSÉ
E A VENDA DE ALIMENTOS.
GN.48.1-22 – JACÓ
ADOECE E ABENÇOA JOSÉ E SEUS FILHOS.
GN.49.1-33 – JACÓ
ABENÇOA SEUS FILHOS E MORRE.
GN.50.1-14 – O
SEPULTAMENTO DE JACÓ.
GN.50.15-26 – JOSÉ
ANIMA SEUS IRMÃOS E MORRE
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Testamento
Fonte:
SEBEMGE - SEMINÁRIO
BATISTA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
APOSTILA DO CURSO DE
ANÁLISE DO VELHO TESTAMENTO
PROF. ANÍSIO R. ANDRADE
ADAPTAÇÃO: Pr. Adelcio Ferreira
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