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Os mortos do dilúvio
Um dos personagens da mitologia suméria, na baixa
Mesopotâmia, chama-se Utnapishtim. Ele e a família são os únicos
sobreviventes de uma inundação que afogou todo o mundo. Ele
escapou porque alguém soprou em seus ouvidos que os deuses,
depois de uma assembléia, resolveram soltar todas as águas para
fazer desaparecer aqueles que tumultuavam o seu sono.
Para salvar-se da enorme tragédia, Utnapishtim deveria
derrubar a sua casa e construir um barco comprido e largo, e
nele introduzir seus familiares, suas posses, sementes de todas
as coisas vivas e um macho e uma fêmea de todas as criaturas
vivas, tanto as domesticadas quanto as selvagens.
Depois de seis dias e seis noites de fúria de vento e
chuva, a tempestade se acalmou. Ao redor do barco não havia nada
mais além da água na superfície da terra. Então Utnapishtim
chorou e aumentou o volume da água com suas lágrimas. Finalmente
o barco encalhou no monte Nisir, ao noroeste da Pérsia. Para
saber se as águas haviam baixado por completo, soltou uma pomba,
depois uma andorinha e, por último, um corvo. As duas primeiras
aves voltaram, mas o corvo, não, naturalmente porque havia
encontrado um lugar para ficar. Agradecidos, os que não morreram
ofereceram um sacrifício aos deuses. Logo que Enlil, um dos
deuses, sentiu o cheiro agradável do sacrifício de Utnapishtim,
ficou furioso por ter havido sobreviventes e descobriu que
alguém lhes havia revelado o segredo da punição. Então Ea, o
deus que não guardou o conchavo, mentiu e asseverou que o pobre
mortal havia sonhado com o dilúvio. Com essa explicação, a raiva
de Enlil esfriou e ele abençoou o casal sobrevivente com a
imortalidade.
O mito de Kranyatz provém de outra região – da Sérvia, na
Europa – e parece-se um pouco com a história de Utnapishtim. Ele
também sobreviveu a uma terrível enchente, provocada pelos
deuses, devido ao comportamento pecaminoso dos homens. Para não
morrer, o gigante Kranyatz teve de escalar a montanha mais alta
e pendurar-se numa parreira, onde permaneceu por 9 anos, até que
as águas baixassem. Nesse longo período de tempo, a parreira lhe
forneceu uvas e suco. Embora tenha sido agraciado, Kranyatz
acabou provocando a ira divina e perdeu o privilégio de pular
por cima do mar, ou descer até o fundo da terra, ou subir para o
paraíso.
Muito semelhante ao mito sérvio, é a versão indígena do
dilúvio universal dada por José de Alencar em “O Guarani”,
publicado em 1857. Enquanto todos se refugiavam nas montanhas,
“Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subiu com ela o olho da
palmeira; aí esperou que a água viesse e passasse; a palmeira
dava frutos que os alimentavam. Quando veio o dia, Tamandaré viu
que a palmeira estava plantada no meio da várzea; e ouviu a
avezinha do céu, o guanumbi, que batia as asas. Desceu com a
companheira e povoou a terra.”
Essas e várias outras versões do dilúvio bíblico aparecem
entre os gregos, galeses, lituanos, escandinavos e islandeses,
na Europa; entre chineses, indianos, birmaneses e malaios, na
Ásia; entre os aborígines da Oceania (Austrália, Nova Guiné,
Micronésia, Melanésia e Macronésia) e entre os indígenas
brasileiros (carajás, coroados, guaicurus, tupis e tupinambás).
Uma das últimas descobertas científicas em torno do
assunto, realizada pelos geólogos americanos Walter Pitman e
William Ryan, co-autores do livro “O Dilúvio de Noé”, publicado
em 1998, leva a crer que a violenta inundação ocorrida há cerca
de 7.500 anos na região do mar Negro bem pode ter sido o dilúvio
narrado no primeiro livro da Bíblia (capítulos 6 a 8 de Gênesis)
e citado por Jesus (Mt 24.38-39) e por Pedro (2 Pe 2.5). A
pesquisa oceanográfica mostra que há um mar sobre um outro mar
no mar Negro e que o primeiro está a 150 metros abaixo do nível
do segundo. Uma enchente de enormes proporções teria
transformado o antigo lago no mar Negro, de 480 mil quilômetros
quadrados e profundidade média de 1.190 metros. Desde 1996 a
National Geographic Society tem financiado o Projeto Mar Negro,
que está mapeando as antigas praias, hoje inundadas e bem
afastadas das praias atuais.
É impossível calcular quantas pessoas morreram afogadas no
dilúvio. Sabe-se com precisão quantos foram os sobreviventes:
apenas “Noé, o pregador da justiça, e mais sete pessoas” (2 Pe
2.5). Essas sete pessoas eram a esposa de Noé, seus três filhos
– Sem, Cam e Jafé – e suas três noras, quatro casais ao todo.
Mas os mortos do dilúvio não foram poucos, já que as pessoas
viviam muito mais tempo e todos tinham “filhos e filhas” (Gn
5.4, 7, 10 e 13). É muito provável que Noé tivesse outros filhos
e não poucos netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, já que ele
tinha 600 anos quando aconteceu o dilúvio (Gn 7.6).
O dilúvio foi provocado não porque os mortais, com o seu
barulho, perturbavam o sono dos deuses, como se vê na epopéia de
Utnapishtim, mas por causa da multiplicação e generalização da
corrupção e da violência humana (Gn 6.5, 11-12). Pedro chama o
mundo antigo, aquele que precedeu o dilúvio, a sociedade
contemporânea a Noé, de “o mundo dos ímpios” (2 Pe 2.5). Por
trás dessa continuidade (está registrado que o coração humano
era “continuamente mau” ou “sempre mau”) e dessa assustadora
progressão do mal está o problema básico da devassidão: o
sentimento de auto-suficiência em seu auge, aquele que projeta
“uma super-humanidade independente do projeto original de Deus”
(nota encontrada na Edição Pastoral da Bíblia Sagrada). Daí a
intervenção de Deus, ao mesmo tempo justa, punitiva e
libertadora. Todas as vezes que o caldo do pecado humano derrama
pelas bordas, o cálice da ira divina também entorna o seu
conteúdo. O dilúvio é a resposta de Deus à proliferação da
violência daqueles dias, antes que ela destruísse o planeta.
Na narrativa bíblica do dilúvio, “rebentaram todas as
fontes do abismo e se abriram todas as cataratas do céu” (Gn
7.11, CNBB), e a chuva caiu sobre a terra durante 40 dias e 40
noites. (Na lenda de Utnapishtim foram apenas seis dias e seis
noites, e na lenda de Kranyatz, o absurdo de 9 anos.) Os oito
sobreviventes – quatro homens e quatro mulheres – e todos os
animais que estavam com eles permaneceram na arca pelo período
de 1 ano e 17 dias, desde a solene entrada no barco até quando a
superfície do solo secou por completo.
Se o dilúvio foi local ou universal não é uma questão nem
fechada nem de suma importância. “O Antigo Testamento em
Quadros” arrola uma série de evidências e de refutações sobre
ambas as interpretações. O que está fora de dúvida é que todos
os viventes em todas as regiões então habitadas pereceram
submergidos pela água de um poderoso dilúvio (2 Pe 3.5), exceto
Noé, o descendente de Sete (o substituto de Abel), de Enoque
(aquele que Deus tomou para si) e de Metusalém (o recordista em
longevidade) e seus familiares. Esse Noé “era homem justo e
íntegro entre os contemporâneos e sempre andava com Deus” (Gn
6.9, CNBB). Sua maior proeza foi não ter seguido a multidão (Ex
23.2; Mt 7.13), embora estivesse dentro dela. Uma análise da
árvore genealógica de Noé (Gn 5) mostra que seu pai morreu cinco
anos antes do dilúvio.
Para caber a multidão de animais impuros (um casal de cada
espécie), de animais puros (sete casais de cada espécie) e de
alimento que Noé deveria armazenar para a família e para os
animais com mais de 1 ano (Gn 6.21), a arca teria de ser enorme.
O barco de três pavimentos tinha 133 metros de comprimento, 22,5
de largura e 13,5 de altura (Gn 6.14-16). Desse mesmo
comprimento era o maior navio da frota do almirante chinês Tseng
He, que singrava o oceano Índico na primeira metade do século
15. Com quinhentos homens a bordo, o barco carregava toneladas
de arroz e outros alimentos para a tripulação e muitas
mercadorias – inclusive barris de pimenta – para serem trocadas
ou doadas nos portos visitados. A preservação dos animais está
ligada à providência de Deus que provê água e alimento para o
homem (Sl 104.10-15; Mt 6.26), mas também tem o propósito de
preservar as espécies, completar a dieta humana (Gn 9.3; Dt
12.15) e prover animais para os holocaustos (Gn 8.20; Lv
1.1-17).
Fonte:
www.ultimato.com.br
Adaptado:Pr. Adelcio Ferreira | |||||||||||
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