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A integridade do evangelho: uma
avaliação do neopentecostalismo Alderi Souza
de Matos Elas ocupam
um enorme espaço na televisão aberta, chegando a milhões de
lares brasileiros todos os dias. As três mais conhecidas e
salientes têm nomes parecidos — Igreja Universal do Reino de
Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do
Poder de Deus. Esses nomes apontam para objetivos ousados e
ambiciosos. Seus líderes máximos adotam, respectivamente, os
títulos de bispo, missionário e apóstolo. Elas são o fenômeno
mais recente, intrigante e explosivo do “protestantismo”
tupiniquim. Trata-se das igrejas neopentecostais, denominadas
por alguns estudiosos “pentecostalismo autônomo”, em virtude de
seus contrastes com os grupos mais antigos desse movimento.
É difícil
categorizá-las adequadamente, não só por serem ainda recentes,
mas porque, ao lado de alguns traços comuns, também apresentam
diferenças significativas entre si. A Igreja Mundial investe
fortemente na cura divina. Seu apóstolo garante que ninguém
realiza mais milagres do que ele. Seu estilo é personalista e
carismático. Caminha no meio dos fiéis, deixa que as pessoas
recolham o suor do seu rosto para fins terapêuticos, às vezes é
ríspido com os auxiliares. O missionário da Igreja Internacional
é simpático e bonachão; parece um pastor à moda antiga. É também
polivalente: prega, canta, conta piadas, anuncia produtos e
serviços. Controla com rédea curta o seu pequeno império.
Todavia, nenhuma dessas igrejas vai tão longe na ruptura de
paradigmas quanto a IURD. Dependendo do ângulo de análise,
parece protestante ou católica. Seu carro-chefe é a teologia da
prosperidade. Defende sem pejo a ética da sociedade de consumo.
Seu líder está entrando na lista dos homens mais ricos do país.
Desde o
início, o cristianismo tem exibido uma grande variedade de
manifestações, algumas bastante inusitadas. Foi o caso do
gnosticismo e do marcionismo nos primeiros séculos, das seitas
apocalípticas na Idade Média e de alguns grupos resultantes dos
reavivamentos nos Estados Unidos do século 19. Porém, nenhum
movimento tem sido tão pródigo em termos de quantidade e
diversidade de ramificações quanto o pentecostalismo
contemporâneo. No atual ambiente pluralista e inclusivista,
muitos observadores vêem nessa multiplicidade um sinal de
vitalidade, de dinamismo. Todavia, há sinais preocupantes nos
ensinos e práticas de certos grupos. Na célebre Confissão de Fé
de Westminster (1647), os puritanos ingleses colocaram a questão
em termos de diferentes graus de pureza das igrejas cristãs —
cap. 25.4,5 (igrejas mais puras e menos puras). Uma avaliação
simpática e honesta das igrejas neopentecostais aponta para
alguns aspectos que precisam ser reconsiderados a fim de que
elas se tornem genuínos instrumentos do evangelho de Cristo. O problema
hermenêutico Uma grave
deficiência dessas novas igrejas está na maneira como
interpretam a Bíblia. Os reformadores protestantes insistiram no
valioso, porém arriscado, princípio do “livre exame das
Escrituras”, ou seja, de que todo cristão tem o direito e o
dever de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Acontece
que muitos viram nisso uma licença para a livre interpretação do
texto sagrado, o que nunca esteve na mente dos líderes da
Reforma. Eles lutaram contra uma abordagem individualista e
tendenciosa da Escritura, insistindo na adoção de princípios
equilibrados de interpretação que levavam em conta o sentido
literal e gramatical do texto, a intenção original do autor, o
contexto histórico das passagens e também a tradição exegética
da igreja. Por essas razões, eles rejeitaram o antigo método de
interpretação alegórica, isto é, a busca de sentidos múltiplos
na Escritura, por entenderam que ela obscurecia e distorcia a
mensagem bíblica. Em muitas
igrejas neopentecostais nada disso é levado em consideração. A
Bíblia se torna um joguete, uma peteca lançada para lá e para cá
ao sabor das conveniências. Tomam-se diferentes declarações,
episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum de
interpretação, passa-se diretamente para a aplicação, muitas
vezes de uma maneira que nada tem a ver com o propósito original
da passagem. O que é ainda mais grave, os textos bíblicos são
usados de modo mágico, como se fossem amuletos ou talismãs, como
se tivessem um poder imanente e intrínseco. A Bíblia é encarada
prioritariamente como um livro de promessas, de bênçãos, de
fórmulas para a solução de problemas, e não como a revelação
especial na qual Deus mostra como as pessoas devem conhecê-lo,
relacionar-se com ele e glorificá-lo. Uma nova
linguagem Na sua
releitura da Bíblia, os neopentecostais por vezes criam uma nova
terminologia, muito diferente dos conceitos bíblicos
tradicionais. Privilegiam-se expressões como “exigir nossos
direitos”, “manifestar a fé”, “declarar a bênção”, todos os
quais apontam para uma espiritualidade antropocêntrica, ou seja,
voltada para as necessidades, desejos e ambições dos seres
humanos, e não para a vontade e a glória de Deus. Alguns dos
temas bíblicos mais profundos e solenes redescobertos pelos
reformadores do século 16 são quase que inteiramente esquecidos.
Não mais se fala em pecado, reconciliação, justificação pela fé,
santificação, obediência. O evangelho corre o risco de ficar
diluído em uma nova modalidade de auto-ajuda psicológica,
deixando de ser “o poder de Deus para a salvação de todo aquele
que crê”. O conceito de
fé talvez seja aquele que esteja sofrendo as maiores distorções.
No discurso de muitas igrejas do pentecostalismo autônomo, a fé
se torna uma espécie de poder ou varinha de condão que as
pessoas utilizam para obter as bênçãos que desejam. Deus fica
essencialmente passivo até que seja acionado pela fé do
indivíduo. É verdade que Jesus usou uma linguagem que
aparentemente aponta nessa direção (“tudo é possível ao que
crê”, “vai, a tua fé te salvou”). Mas o conceito bíblico de fé é
muito mais amplo, a ênfase principal estando voltada para um
relacionamento especial entre o crente e Deus. Ter fé significa
acima de tudo confiar em Deus, depender dele, buscar a sua
presença, aceitar como verdadeiras as declarações da sua
Palavra. O objeto maior da fé não são coisas, mas uma pessoa — o
Deus trino. Fundamento
questionável A teologia da
prosperidade, que serve de base para boa parte da pregação e das
práticas neopentecostais, é uma das mais graves distorções do
evangelho já vistas na história cristã. Essa abordagem teve
início nos Estados Unidos há várias décadas, sob o nome de
“health and wealth gospel”, ou seja, evangelho da saúde e da
riqueza. No neopentecostalismo, essa se torna a principal chave
hermenêutica das Escrituras. Tudo passa a ser visto dessa
perspectiva reducionista acerca do relacionamento entre Deus e
os seres humanos. O raciocínio é que Cristo, através da sua obra
na cruz, veio trazer solução para todos os tipos de problemas
humanos. Na prática, acaba se dando maior prioridade às
carências materiais e emocionais, em detrimento das morais e
espirituais, muito mais importantes.
Tradicionalmente, as maiores bênçãos que o homem podia receber
de Deus incluíam o perdão dos pecados, a reconciliação, a paz
interior e, num sentido mais amplo, a salvação. Dentro da nova
perspectiva teológica, as coisas mais importantes que Deus tem a
oferecer são um bom emprego, estabilidade financeira, uma vida
confortável, felicidade no amor e coisas do gênero. É uma nova
versão da tese do sociólogo alemão Max Weber, segundo o qual os
calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência da sua
eleição. Os problemas da teologia da prosperidade são diversos:
(a) falta de suporte bíblico — a Escritura aponta na direção
oposta, mostrando a armadilha em que caem os que se preocupam
com as riquezas; (b) empobrecimento da relação com Deus,
concebida em termos interesseiros e mercantilistas; (c)
incentivo a atitudes de individualismo, egocentrismo e falta de
solidariedade; (d) tendência para a alienação quanto aos
problemas da sociedade. Conclusão O
neopentecostalismo representa um grande desafio para as igrejas
históricas e mesmo para as pentecostais clássicas. Esse
movimento tem encontrado novas formas de atrair as massas que
não estão sendo alcançadas pelas igrejas mais antigas. Nem todos
os grupos padecem dos males apontados atrás. Muitas igrejas
neopentecostais são modestas, evangelizam com autenticidade e
não se rendem à tentação dos resultados rápidos, dos projetos
megalomaníacos e dos métodos incompatíveis com o evangelho. O
grande problema está nas mega igrejas e seus líderes
centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro. Estes
precisam arrepender-se e voltar às prioridades da mensagem
cristã, buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua
justiça, para que então as demais coisas lhes sejam
acrescentadas.
fonte: Alderi Souza de Matos é doutor em história
da igreja pela Universidade de Boston e historiador oficial da
Igreja Presbiteriana do Brasil. www.ultimato.com.br
Pr. Adelcio Ferreira | |||||||||||
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